Abre os olhos ainda confuso depois do furacão que passou.
Levou tudo! Levou a casa - que ele julgava firme, levou os móveis - que ele julgava fortes, levou os seus - que ele julgava eternos.
O furacão veio sem aviso. Ventava aqui e lá, silencioso, destruindo aos poucos sem avisar que chegaria ali.
Ele, seguro em sua hipotética fortaleza,vivia de sonho e de sorriso, de uma estrutura que julgava ser maciça e era frágil - desmoronou.
Foi uma madrugada já tensa, de ventanias que anunciavam um suposto fim.
“Será que a cada aguenta?” - pensou ele.
“É só um vento forte, encosto as janelas e tudo bem.” - supôs.
A ventania, mostrando a que veio, uivava. Entrou pela casa batendo portas, quebrando copos, pratos, o que via pela frente.
Assustado, entendeu que só encostar as janelas não bastaria e trancou todas elas, passou a chave nas portas, guardou o que sobrou de suas coisas e foi, covarde, se esconder debaixo da cama.
Rastejando pelo quarto, ouvindo o zumbir da ventania, ele custava a crer no que estava acontecendo: tudo que ele construiu, sendo levado, devastado, destruído.
Esqueceu dos seus, no quarto ao lado, acuados. Sua preocupação foi com as coisas, foi com o que batalhou duro pra conseguir comprar - afinal ninguém sabe seu esforço pra ter cada uma daquelas coisas ali, enfeitando sua casa.
Acovardou-se, esperou o furacão passar. Debaixo daquela cama, no escuro, só sentia o sacudir de tudo desmoronar à sua volta.
Não tinha mais casa, não tinha mais mobília, não tinha mais família.
Ouviu, covarde, o grito dos seus a suplicar por ajuda. Não se mexeu.
Inerte, apenas respirava. Não foi capaz sequer de dizer que os amava, que sentia muito, que simplesmente esse era o melhor que podia fazer - fugir.
Nem isso. Apenas esperou, parado, estático, debaixo de uma cama.
Rezou para os céus esperando pelo milagre.
O milagre não veio.
Veio sua vida, agora sem por quê.
Sem casa, sem mobília , sem família.
“Mas eu não vi” - ele repetia a todos. “Eu não vi o que aconteceu. Só fugi e me escondi o mais rápido que pude. Não sei onde estavam todos, estavam lá?”
E como um mantra ele repetiu pra si, por toda uma vida, vagando, só:
“Mas eu não vi, eu não ouvi, eu não senti.”