terça-feira, 27 de agosto de 2013

Força do Verbo

Olhei, não viu.
Desci, subia.
Soprei, piscou.
Sorri, sorriu.
Abraçou, gostei.
Mais forte, relaxei.
Subiu, desci.
Olhou, não vi.
Passei, sorri.
Puxou, blefou.
Sem mais, beijou.
Gargalhei, gargalhou.
Andei, ficou.
Dançou, flertou.
Cantei, joguei.
Sem mais por quê, chegou.
Olhou firme, ficou.
Pegou forte, beijou.
Derreti, abracei.
Suspirei, congelei.
Arrepiou, adorei.
Ficamos, gostamos.
E assim, fomos nós.
Ponto!

É o verbo, a ação.
É o movimento, a sensação.
É o dinamismo do que ainda está por vir.
É o ceticismo pelo que pode iludir.
É viver uma noite que vira dia.
É um dia que será noite.
Um dia...





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Os Comediantes Estão de Volta

Incrível como o mundo está cheio de comediantes!
Tem pra todo gosto, desde os mais sutis e inteligentes até aqueles das piadas batidas, sem graça, que sequer um sorriso de canto de boca a anedota vale.
E com essa moda do stand up??? Agora eles realmente acreditam que não precisam mais de hora nem lugar. Em qualquer oportunidade que considerem a rua vira palco e o horário torna-se propício a seu showzinho particular.
Adventos tecnológicos também colaboram.
Piadinhas via rede social, aplicativo de celular, quadrinhos montados cuidadosamente ( ou nem tanto...). O fato é que a arte de ser comediante não sai de moda para esses indivíduos; o importante é a sua graça, a sua risada, a sua diversão.
Falo aqui, que fique claro, dos amadores! Comediantes profissionais não costumam perder  seu público. Pobres amadores, repertório curto de piadas sem sal, esforço mediano para ser minimamente razoável na arte de fazer rir.
O público parado, braços cruzados, tentando prestar atenção, procurando graça naquela desgraça de apresentação. Enquanto isso o comediante de meia tigela, alheio à reação da platéia, ri e gargalha de sua tiradas mal interpretadas.
Comediantes em início de carreira, atentem para o seguinte: apesar do destaque inicial para um público em grande quantidade, apesar das gargalhadas desenfreadas, das caras e bocas a cada nova performance; sejam fortes: elas não entenderam a piada! Não entenderam ou simplesmente não prestaram a menor atenção, não era esse o foco. São uma maioria alienada... Ou talvez gostem de piadas sem conteúdo (compatíveis com sua capacidade de entendimento).
O bom público, o que não se contenta com qualquer coisa, o que quer piadas inteligentes, que contribui pra apresentação; esse público não quer mais as velhas anedotas sem sal, as tiradas idiotas de sempre. Precisa de identidade, de verdade, de personalidade.
Faça sua comédia de maneira sagaz, cuide do seu público com carinho.
Deve ser muito desagradável marcar uma apresentação e receber gargalhadas pelo simples convite ao invés da piada.



domingo, 18 de agosto de 2013

As Grades

As grades estão lá, sempre estarão. O que prendeu a vida toda permanece no mesmo lugar; não é interessante o movimento pro que está preso e assim vive bem e feliz.
A fera que acha que é o rei das selvas na realidade virou um gatinho domesticado, que ao primeiro sinal de ração ou biscoitinho de peixe abana o rabo, senta e abre a boca.
A fera só ruge pra fazer teatro, pra assustar quando tem público pra bater palma. Sozinho, cercado por grades apenas ronrona, no máximo grunhe de leve quando a fome aperta.
Habituou-se ao pouco espaço, à comida sem gosto de todo dia, ao tratador sem sentimentos. 
Não tem parceira, não tem amigos, vive só. Inúmeras tentativas foram feitas e a fera ao ver qualquer outro de aproximar rosnava forte, simulava um ataque perfeitamente mortal - simulava. Sabia por dentro que jamais mataria, jamais atacaria porque a covardia era e sempre seria uma característica de toda aquela coragem fingida.
Para o público do outro lado das grades a fera era pomposa, forte, incontrolável. Era um barulho tão alto que crianças chegavam a chorar de medo e a fera só conseguia pensar no seu pseudo-sossego, na paz que seria manter-se ali só, sem ninguém a importunar seu destino de solidão.
Com o zoológico aberto era o rei, o animal mais cobiçado a ser visitado. Estufava o peito, alinhava a juba, levantava as patas como um lutador de boxe. Nada... Era por dentro apenas tristeza, dor, solidão, saudade, covardia. Pensava o tempo todo no que deixou de viver quando vivia solto na floresta, quando tinha uma família, quando teve a oportunidade de ter amigos. Pensava no que não fez enquanto o tempo, impiedoso, passava. 
A fera virou um gatinho, num canto encolhido. O futuro era só deixar passar o tempo, assustar aos que se aproximassem, esperar o fatídico dia em que não mais pudesse fazer absolutamente nada. Aguardava ansiosamente pelo dia em que fosse de fato esquecido ali naquela jaula, apagado da memória de todos, ou só lembrado pelo esplendor de outrora. 
Passou a viver de saudade do que não pôde ser, de vontade de ser o que não conseguia. O dia passava, a noite também e o presente tornava-se ontem com a mesma velocidade em que o amanhã se tornaria hoje e a fera em nada iria crescer, evoluir.
As grades continuavam lá, imaginárias agora. Foi solta, alforria pela velhice. Jogada na selva pra aproveitar o fim dos seus dias ( ela pensava...). Diante de tanto espaço e tempo livre, só seu, não soube o que fazer. Não tinha forças, não tinha vida, não tinha brilho no olhar. Procurou por sua ração, por seu biscoitinho, por seu canto gelado no cimento pra dormir. Olhou buscando a platéia pra rugir e se fazer fera - nada!
Com medo daquele silêncio perturbador achou por bem voltar ao zoológico. Preferia viver em segurança, na certeza das grades que o faziam fera domada, gatinho de madame. Preferia ser ator no seu cenário cruel e frio que ser dono de sua liberdade. Preferiu ser pouco ou quase nada do que ser feliz.
Felicidade dá trabalho e requer coragem; não é mesmo pra uma falsa fera.
Só é feliz quem é fera de verdade, quem abre o peito pro desafio, quem ruge, quem grita, quem pula a grade pra ser livre.
As grades estão lá, sempre estarão. E você, vai fazer o quê?



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Parabéns, Clá!

Caí. Muitas vezes, inúmeras. 
E a cada vez que caí ela me ajudou a levantar.
Chorei. Infinitos dias e noites eu chorei.
E todas as vezes que as lágrimas caíram ela me ajudou a enxugar.
Juntas celebramos Natais, Páscoas, aniversários. Celebramos a vida todos os dias desde o primeiro dia há décadas atrás.
Juntas velamos os nossos, oramos pelo seu progresso, resistimos bravamente à saudade que nos consome alguns dias.
Juntas vimos o amor nascer em cada momento da vida, criamos um irmão malcriado e insuportavelmente carinhoso ( tanto que nem sempre dá pra brigar com ele...).
Juntas conseguimos formar uma família com avós, tias e tios em dobro, primas que também considero minhas, uma casa pra descansar o coração.
Sorri. Todas as vezes que nos encontramos sem querer ou por querer, eu sorri. 
E a cada novo momento ao longo da vida que nos encontrarmos será assim porque é a sua presença e apenas isso me basta. 
Abracei. Com o todo o amor que tenho abracei sua vida, seus pais, seu irmão, seu marido, sua família. Abracei como sei que ela fez, faz e continuará fazendo por cada um dos meus.
Juntas somos invencíveis porque é essa a nossa missão. Seguramos uma à outra quando achamos que vamos tombar. Essa é a nossa certeza.
Desde sempre e para sempre seremos nós.
O aniversário é dela mas o presente é todo nosso.






sábado, 10 de agosto de 2013

Saudade Pra Comemorar

Uma saudade sem fim me toma. Lembro de cada som, de cada cheiro, de cada gesto dele.
Me esforço diariamente pra não perder nenhum dos momentos na minha mente. São muitos anos, mais sem do que com e a saudade ainda dói vez ou outra.
A que dói na realidade é a do que não tive oportunidade de viver. É aquela saudade esquisita do que queríamos ter vivido juntos. 
Muito mais que um dia pra ele, até porque nunca precisamos disso, é o meu furo no queixo, a minha sobrancelha, meu jeito sutil de ser legal só com quem eu realmente gosto. É sorrir e lembrar do cheiro de sabonete Phebo na hora de dormir, do barulho leve de ronco de madrugada, da vinheta do Supercine dos sábados à noite.
É uma música que toca, um mergulho em Ipanema, olhar o mundo da pedra do Arpoador.
É escrever Amorelli todos os dias da minha vida, olhar fotos e me ver nele - e vê-lo em mim.
É agora começar a escrever chorando e me ver de repente sorrindo ao lembrar de tantos e inúmeros sorrisos que recebi a cada vez que entrei no carro, a cada bom dia, a cada café da manhã que parecia almoço.
Sua vida está eternizada em mim. Sou e serei feliz todos os dias por tê-lo escolhido antes mesmo de aparecer por aqui. Aquela risada inconfundível jamais sairá do meu ouvido, o bater do seu coração quando deitava no seu peito pra dormir aconchegada, seus braços abertos pro abraço mais gostoso do mundo.
Foi o que pôde ser, me amou da melhor maneira, me cuidou e mais do que qualquer pessoa, me respeitou. 
Pai, obrigada por sua vida, pela nossa vida, pelo nosso amor.
Saudade boa, sorriso bom... E um vinho branco pra comemorar!



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Paredes Brancas

De tanto ser louca, cansou. Parou de espernear, de descabelar-se por qualquer coisa.
Os gritos cessaram, as palavras duras e sem fundamento calaram. Não podia mais, a energia esgotou-se e por fim deixou-a ali, estafada, exausta, sozinha.
Recostada numa das quatro paredes que a cercava ela ouviu aquele silêncio e sentiu dor; uma dor profunda e intensa que teimava em aumentar a cada  lágrima que escorria no seu rosto.
Aquelas paredes alvas, incrivelmente brancas, tão brancas que ofuscavam sua visão. Não enxergava com clareza e seu corpo pesava cada vez mais.
O silêncio deu lugar ao sussurro de um choro há muito contido. Não suportando mais seu próprio peso sobre as costas deitou-se.
Posição fetal, mão direita no peito, mão esquerda entre as pernas. Fechou os olhos com medo do que mais poderia ver se permanecesse olhando aquelas paredes.
Lamentou baixinho; só ela ouvia suas palavras soltas.
Lágrimas caíam uma a uma, olhos cerrados, cenho de quem está tendo um pesadelo e não consegue acordar.
Com os minutos passando vieram soluços entre cada choro contido; abriu os olhos devagar ainda com medo do que iria ver.
Silêncio. Paredes brancas. Nada mais.
Escolheu viver só, escolheu a clausura, escolheu não se entregar a nada nem a ninguém.
Não amou, não sentiu, não se permitiu.
Pensando ser forte, viveu.
Sendo fraca e só, morreu.




Um Abraço

Um abraço, um encontro de dois corações, um approach de almas.
Um abraço que vale por mil palavras, por olhares que nem sempre se encontram.
Um abraço que é muito mais íntimo que qualquer beijo de cinema, que tira o fôlego de tão apertado, que aquece o corpo inteiro em um segundo.
Um abraço que tira do chão e faz rir, que leva pra outra dimensão, que faz um sentir o coração do outro batendo forte, vibrando compassadamente a energia daquele momento.
Um abraço que se espera durante anos de quem está longe e que se guarda por mais tantos quantos forem necessários até poder abraçar de novo.
Um abraço com direito à corrida de braços abertos, segundos que antecedem o grande encontro, sorriso maior do mundo no rosto, risadas gostosas e o amor mais profundo sendo emanado de cada parte do corpo.
Um abraço de uma família inteira, um poema, uma canção, uma só voz.
Um abraço pra você que leu e ainda não ganhou um abraço hoje.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Carnaval Fora de Época

Confete, serpentina, água mineral, água de mangueira, água de gelo do isopor.
Música alta, música de bandinha, carro de som, trio elétrico, bateria de escola de samba, orquestra.
Pés descalços, pés de Havaianas, pés de sapatilha, pés de tênis, pés de sandália, pés de gente.
Colombinas, índios, bailarinas, palhaços, ciganas, super-heróis.
Criança, adulto, velhinho, bebês e até cachorros e gatos.
Na rua, na praia, na calçada, no asfalto, no parque, na praça, no metrô, no ônibus.
É em fevereiro mas começa assim que a festa junina acaba. O ano todo é carnaval.
Sonhamos com fantasia, com uma por dia. Queremos sorrisos, preferencialmente sem juízo.
Deixamos a alma descansar por 4 dias e saímos por aí com o corpinho a bailar.
Ansiosamente esperamos 361 dias por 4 de folia. 
Com os olhos cobertos de sonho ficamos amigos de todos, amamos por horas uma pessoa que acabamos de conhecer, iludimos e somos iludidos pelo possível e improvável "pós-carnaval".
Tem amor que é pra subir a serra e não tem tempo nem distância que dê jeito. O universo conspira e quando você vai perceber já está enlaçado.
Tem gente que veste fantasia pra se libertar, tem gente que se esconde pra ser o que não pode ser.
Tem gente que vive, sonha, corre na frente pra não perder a chance. Se joga no mundo, vai fundo! Cai no banco comendo um sanduíche, faz vergonha voltando pra casa e ainda assim é apaixonante!
Tem gente que mora longe, tem gente que tem família complicada, tem gente que é mimada.
Tem todo tipo de gente, afinal, é carnaval!
Como um milagre tem amor que dá certo, que funciona, que rompe essa barreira. Que na primeira oportunidade faz tudo errado mas que na segunda quer tanto, tanto que funcione que ganha, leva pra casa e não solta nunca mais.
E pra gente o que importa mesmo é o que sobrevive, que constrói a sua verdade, que tira a fantasia, reencontra sua alma e apresenta pra alma do outro.
É gente assim que vive 365 dias feliz, e não 4.


Castelo de Areia

É que ele não sabe, ou simplesmente não notou, que um dia virou uma semana, um mês, um ano.
Deixou o tempo passar e agora perdido procura explicação pro que podia ter vivido sem ter que explicar nada.
Ela ri lá de longe e o enxerga tão pequeno que não consegue entender como pôde ter lhe visto tão magnânimo, tão grandiosamente perfeito.
De fato foi grande, foi forte, foi um pedaço do melhor que poderia ser. E aí residiu o erro: foi só um pedaço.
Ela queria o todo porque era o todo dela que estava disposta a dar. Mesmo ciente das consequências de sua doação desenfreada ela resolveu se jogar, já que não conhecia outro caminho pro amor naquele tempo.
Cresceu, amadureceu; com os ombros pra trás, peito aberto e cabeça erguida caminhou rumo à felicidade.
Esquecer foi uma decisão; deixá-lo no seu castelo cercado de muros intermináveis.
Livre pro mundo, pra tudo, ela seguiu e ele ficou. Permaneceu no seu castelo de areia que com uma pequena onda viraria ruína, nada mais.
Rei do seu mundo de ilusão, foi à torre mais alta numa esperança vã de avistá-la, quem sabe chamar seu nome, tê-la mais uma vez em seus braços como tantas outras vezes.
Do alto olhou e viu um universo enorme, um mundo de horizonte infinito - não a viu. Ou quem sabe não pôde enxergar já que o tempo e sua ilusão o fizeram cego pro que realmente tem valor.
Suspirou, lembrou de momentos bons que não voltariam mais. Pensou em cada palavra dita a ele e em cada uma que ele deixou de dizer. Viveu e reviveu os dias e noites ao lado dela, sentiu seu cheiro... Ah, aquele cheiro! Capaz de ludibriar todos os sentidos ao mesmo tempo, capaz de fazer sua mente se perder em segundos. A luz daquele sorriso que brilhava ao amanhecer nos seus braços, o som leve da voz rouca dizendo bom dia.
Ali se viu perdido em lembranças, era o que restava. Preso, cercado por muros de ilusão, escolheu viver e arcou com a solidão de cada dia que viveu e ainda viverá sem ela.
Seu castelo se dissolveu na primeira onda que veio mais forte. Ela tinha nome: SAUDADE. 
Levou consigo muros, torres, castelo; levou tudo. Deixou pra trás apenas restos de areia e a saudade sem fim do que o rei deixou de viver por medo de ser feliz.