domingo, 18 de novembro de 2012

Ela e Ele

Olha pra ele numa foto, sorri.
Ainda que amedrontada pela veracidade daquele olhar ela sente arrepios leves percorrerem sua espinha, sacode levemente a cabeça como que desacreditando do que viveu.
Maximiza a foto, modernidade na ponta dos dedos. Analisa a expressão daquela face agora com mais calma. Queria poder tocá-lo agora, sentir seu calor; sua face enrubesce.
Respira fundo, fecha a foto. Revive por segundos as horas ao seu lado. 
Ela tão segura de si, tão dona de suas vontades, tão perseguidora da razão se perde agora em devaneios e desejos (incontroláveis!).
Ele não precisa de muito: sorri, a boca se abre de uma forma que a conquista, um pré-sorriso que já a traz o céu. Olha pra baixo, e levemente pra cima; quando se dá conta os olhos se encontram. Sem palavras, já não cabem naquele instante. 
As mãos se enlaçam, a pele arrepia, uma gota de suor desce pelas costas.
Firmeza no toque, sentem o cheiro um do outro, feromônios atacando.
Caracóis de cabelos negros a se enrolar uns nos outros. Deslizar leve de mão na nuca, no dorso.
Ele a leva pela cintura, conduz cada passo, gira seu corpo e sua alma - que dança saltitante a rodopiar.
Um cheiro, um gosto, um toque. Todos os sentidos apurados e todos os desejos aguçados.
Ela respira fundo, mãos dadas, olha pra baixo, sorri timidamente.
Levanta o rosto e seu olhar agora é de furor. Quer, mais ainda, exige.
Ele vai mais fundo com aquele olhar insuportavelmente penetrante e a invade um torpor que consome, inebria, contagia.
Desejam, querem, podem.
Ela nem pestaneja e se joga. 
Ele olha pra baixo, contrai um sorriso e pensa: " E se?"



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pássaro




Sou livre demais pra alçar voos baixos.
Voando alto vejo muito mais, sinto o ir e vir de cada nuvem que por mim passeia e sorri.
Por cima de mares e terras deixo o tempo sucumbir à minha felicidade.
Não há minuto, hora, dia; só existe céu, e mar, e horizonte.

Dou rasante pro reflexo na água ficar mais bonito.
Gosto do prazer de mergulhar de cabeça e sentir o quase tudo pulsar no meu corpo.
Mais do que meu semblante no espelho d'água vejo feições e sinais de uma vida de superação do medo da morte sempre tão perto.

De longe sou bicho de asa aberta pra atacar muitas vezes.
Pareço mais do que sou a quem não me enxerga e só me vê.
De perto sou só mais um pássaro a planar, a observar seu redor.
Sou infinitamente mais do que pareço pra quem consegue burlar a armadura que insiste em cingir meu coração por tantas vezes.


Sou livre demais pra gaiola, pra terra.
Asas foram feitas pra liberdade, pés para apoio, nada mais.
Antepus meus desejos à razão de qualquer dever supostamente moral.
Arrepender é um verbo pouquíssimo conjugado; rasante não precisa de motivo, precisa de coragem!

Só coloco os pés no chão caso haja necessidade.
E ainda havendo necessidade, os olhos estão sempre apontados para o céu.
Nunca se sabe quando pássaros, livres como eu, virão em revoada.
Pássaro que sou voo só. E melhor que voar só é revolutear bem acompanhado dos que partilham da mesma liberdade.

No mais o céu é o limite!


domingo, 4 de novembro de 2012

Minutos pro Samba

Vem o barulho, batuca o pandeiro.
A chuva se forma lentamente e com pressa cai.
Pessoas amontoadas e felizes cantam numa só voz.
Vem o barulho, chora o cavaco.
Pés molhados no chão, cabeça nas estrelas.
Sorrisos e olhares se cruzam no ar.
Vem o barulho, firma o tantan.
Ligeiramente inebriados furtam bocas e olhos no cantar.
Pelo que foi e o que será, fantasiam.
Vem o barulho, voa livre o samba!