quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Circo

E mais uma vez chega o circo à cidade! Abrem a lona, montam o picadeiro!
Hoje tem marmelada? 
Tem sim senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem sim senhor!
E o palhaço, o que é que é?
É ladrão de mulher!  - Ou só do seu coração, vai saber!
Tem malabarista que equilibra pratos nas varetas - gira, gira sem parar.
Tem contorcionista que se vale de mil jeitos para impressionar e surpreender.
Tem domador de leões que mantém o bicho na jaula às custas de medo e opressão.
Tem equilibrista na corda bamba, tendendo de um lado a outro sem nunca decidir se cai ou se fica.
Tem trapezista e seu fantástico voo. Soltando e segurando, voando, rodopiando. Mãos que seguram e não soltam jamais o companheiro de acrobacia.
Tem o atirador de facas confiante de sua capacidade, cada lance milimetricamente calculado pra não atingir, pra não machucar. Sua intenção é a emoção de cada faca, a adrenalina do lançamento e o abraço ao final feliz.
Tem mágico com suas ilusões, sua mentira, sua forma feiticeira de fazer vidrar, sentir, vibrar. Ganha o público de forma única! Entretém, ludibria, envolve. Tira coelhos, pombos, lenços coloridos, flores - sua cartola é de infinitos desejos! Burla a realidade com a fantasia e traz a alegria efêmera - que termina e desilude.
Mas quem é o astro do circo? Qual é a atração mais esperada?
"Chegou, chegou, tá na hora da alegria. No circo tem palhaço, tem, tem todo dia!"
Ele já chega tropeçando - e mesmo assim todo mundo ri.
Ele chuta o companheiro - e todo mundo ri.
Ele joga água na platéia, dá cambalhota, finge que cai e levanta - e todo mundo ri.
Ele leva a flor pra mocinha que assiste acanhada e um sorriso se abre - ganhou mais uma!
Mas ele também volta pra coxia. É por trás dos panos, de frente ao espelho que a máscara cai, que a maquiagem sai. É lá que a mocinha não o reconhece, é lá que nem ele mesmo sabe quem é. 
Só se vê vestido de cor e pó colorido, só se reconhece no sorriso dos outros - não sabe qual ou o porquê do seu; não sabe nem mesmo se ele existe de verdade. 
Sentado ali, parado sem aplauso e sem comédia uma lágrima cai - tira a peruca e o sapato maior que o pé. Se vê numa nudez indecorosa sem sua tinta, sem sua fantasia, sem seu carnaval, sem sua platéia a rir de tudo e de nada.
A mocinha não é mais platéia... Viu o palhaço sem rosto, sem sorriso, sem flor, sem festa, sem nada. Perdeu a graça, o gosto, a cor. Ficou preto e branco, sua única transparência foi a lágrima que caiu.

Desmonta o circo, cai a lona, sem mais picadeiro, sem mais palhaço, sem mais mocinha, sem mais.





quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fruir

Acordou. Olhou de um lado pro outro, nada viu. Parou por um instante: onde estava mesmo? 
Ah,a noite anterior! Foi ela a responsável pelo torpor, pela amnésia momentânea.
Nada como um dia após o outro e uma noite no meio pra melhorar tudo!
Horas de pouca luz, muitos sons; tantas palavras a princípio, poucas palavras ao final. 
Sem levantar, mudando só de posição na cama ainda quente, fechou novamente os olhos. Sorriu, passou a mão nos cabelos revoltos, suspirou.
Era a sua casa, o seu quarto, a sua cama : poderia ser qualquer lugar!
Era ela com seu prazer, desfrutando de cada minuto daquela noite mais uma vez. 
Quem disse mesmo que precisa dormir e acordar abraçado? 
Precisa da cumplicidade do instante, do olho no olho, da palavra certa, das mãos enlaçadas; da pegada forte na cintura, na nuca, no ombro, onde vier, onde quiser. Desnecessárias são as juras do que nunca vai existir, das promessas de um amor que não vem, de elogios que definitivamente não se aplicam.
Quer veracidade, quer sanha, quer a manha do que vai mas não fica e assim mesmo conquista. Ludibriada mas completamente consciente vive, regozija-se, frui de sua volúpia, e com ela adormece.
Coadjuvante no cenário, uma lembrança guardada no armário, o fim de um calvário. Vale a rima pobre por um sentimento nobre: prazer.
Veio e foi, como tantos vieram e virão. Ela fica, sabe quem é, o que quer, quando e onde. 
O motivo? Jamais saberá! Quer porque quer, porque cisma, porque gosta, porque se apaixona, e ama, e sofre, e chora. E se desapaixona, morre de rir sentada na areia de uma praia que sempre foi sua. Mergulha, limpa o corpo e a alma, se deita ao sol.
É pra ele que se doa, que se despe, que se expõe.
Adormece...





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Desconexos

Quanto vale um sentimento de verdade?
Quanto custa um momento inesquecível?
De que forma se faz do sublime, vil?
Com que palavras se define a covardia de um ser?
Perguntas sem resposta; questões sem esclarecimento.
E precisa?


É claro, ou deveria ser. Honesto, cristalino, transparente.
Mudar de ideia, trocar de roupa, transcender, transformar.
"Tudo muda o tempo todo no mundo", já diz a música.


Um fala, o outro ouve.
Um exala, o outro cala.
Um transpira, o outro gela.
Um abraça, o outro vira.
Um segura, o outro solta.
Um que vai, o outro sai.


O cometa sumiu, a estrela apagou - se é que um dia brilhou.
O salto foi ao chão - sem paraquedas!
O que foi interessante se fez tão superficial que como poeira se desfez no vento. 
Sem palavras, sem som, sem cuidado.
Negligenciando sentimentos e pensamentos, negando uma justificativa qualquer - talvez até as mentiras sinceras do Cazuza interessassem.
A conexão nunca existiu; a invenção do que foi e do que seria nos trouxe até aqui.
Nós? 
Pronome pessoal, não dá pra usar... Está num plural que não houve, numa intimidade pérfida, desprovida de qualquer emoção.


Foi o que sempre foi; deu-se como é, despida e despudorada.
Não sabe o que o outro foi, nunca de seu, nunca se mostrou, não sabe nem quem é.
Desconexos, convexos.
Nós? Sós!


domingo, 1 de julho de 2012

Estrada

Olhei pro lado, não estava mais lá. Olhei pra trás, estava ali, parado, estático, inerte.
No meio da estrada ficou, no meio da corrida desistiu. Perdeu o treino todo, nem viu a possibilidade da vitória desistindo tão rápido, por tão pouco.
Não teve coragem de continuar, na primeira dor parou. 
Só quem treina forte, com objetivo certo, com tempo marcado, sabe que a dor faz parte da prova, que ela é até necessária pro resultado ser positivo. É na dor que se aprende a ser melhor, a ser maior, a superação, a abstração por um bem maior: a vitória!
E a vitória vem pela conquista do que é só seu, do que ninguém pode lhe tirar: a felicidade.
Temos sempre a chance de parar e desistir: é assim pra todo mundo.
Podemos olhar pra trás e ficar contemplando a estrada percorrida e a partir daí decidir ficar ou continuar.
Muitas vezes é necessário mudar o trajeto, modificar o curso pra que a tão esperada felicidade seja alcançada. Nem sempre o novo rumo é mais fácil que o anterior. Mas certamente vale muito mais o percurso, a estrada, o bater dos pés no chão, o coração forte, pulsando, batendo. Sentir o vento soprar no rosto suado, sentir a energia boa de quem encontrou nesse novo rumo, nessa nova estrada.
Lutar é uma tarefa árdua e constante; desistir é para sempre.