E mais uma vez chega o circo à cidade! Abrem a lona, montam o picadeiro!
Hoje tem marmelada?
Tem sim senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem sim senhor!
E o palhaço, o que é que é?
É ladrão de mulher! - Ou só do seu coração, vai saber!
Tem malabarista que equilibra pratos nas varetas - gira, gira sem parar.
Tem contorcionista que se vale de mil jeitos para impressionar e surpreender.
Tem domador de leões que mantém o bicho na jaula às custas de medo e opressão.
Tem equilibrista na corda bamba, tendendo de um lado a outro sem nunca decidir se cai ou se fica.
Tem trapezista e seu fantástico voo. Soltando e segurando, voando, rodopiando. Mãos que seguram e não soltam jamais o companheiro de acrobacia.
Tem o atirador de facas confiante de sua capacidade, cada lance milimetricamente calculado pra não atingir, pra não machucar. Sua intenção é a emoção de cada faca, a adrenalina do lançamento e o abraço ao final feliz.
Tem mágico com suas ilusões, sua mentira, sua forma feiticeira de fazer vidrar, sentir, vibrar. Ganha o público de forma única! Entretém, ludibria, envolve. Tira coelhos, pombos, lenços coloridos, flores - sua cartola é de infinitos desejos! Burla a realidade com a fantasia e traz a alegria efêmera - que termina e desilude.
Mas quem é o astro do circo? Qual é a atração mais esperada?
"Chegou, chegou, tá na hora da alegria. No circo tem palhaço, tem, tem todo dia!"
Ele já chega tropeçando - e mesmo assim todo mundo ri.
Ele chuta o companheiro - e todo mundo ri.
Ele joga água na platéia, dá cambalhota, finge que cai e levanta - e todo mundo ri.
Ele leva a flor pra mocinha que assiste acanhada e um sorriso se abre - ganhou mais uma!
Mas ele também volta pra coxia. É por trás dos panos, de frente ao espelho que a máscara cai, que a maquiagem sai. É lá que a mocinha não o reconhece, é lá que nem ele mesmo sabe quem é.
Só se vê vestido de cor e pó colorido, só se reconhece no sorriso dos outros - não sabe qual ou o porquê do seu; não sabe nem mesmo se ele existe de verdade.
Sentado ali, parado sem aplauso e sem comédia uma lágrima cai - tira a peruca e o sapato maior que o pé. Se vê numa nudez indecorosa sem sua tinta, sem sua fantasia, sem seu carnaval, sem sua platéia a rir de tudo e de nada.
A mocinha não é mais platéia... Viu o palhaço sem rosto, sem sorriso, sem flor, sem festa, sem nada. Perdeu a graça, o gosto, a cor. Ficou preto e branco, sua única transparência foi a lágrima que caiu.
Desmonta o circo, cai a lona, sem mais picadeiro, sem mais palhaço, sem mais mocinha, sem mais.

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