quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O Rei e o Rato

O rato roeu a roupa do rei de Roma. 
O rei, perdido, pelado, surtou e vagou pelas ruas. 
O rato, farto de tanta tirania ( ou do que ele achava ser),sentou no trono do rei e resolveu tomar pra si o castelo. 
O problema é que rato jamais chega a rei, rei jamais será rato. 
A roupa que um veste e o outro não, a morada que um tem e o outro não, a sabedoria de ser rei, ainda que pelado e surtado; a prepotência do rato, achar que a coroa vai caber na sua cabeça pequenina de roedor sujo.
Algumas coisas simplesmente são: majestade tome seu trono e reine porque seu lugar é seu e não há rato que roa princípios, honestidade, hombridade, valores. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Inominável Vento

Uma brisa, depois um furacão. Uma tarde de um dia mudaria todo o curso daquelas vidas. 
Um vento forte que tirou todos os papéis das gavetas, que arrastou tudo que viu pela frente, que fez repensar tudo que já sentiu na vida. Uma certeza de que depois dessa ventania viria a calma, a serenidade dos que sabem o que querem e que juntos vão buscar por isso.  Faz-se necessário arrumar o que o vento espalhou, realocar o que está espalhado pelo chão, jogar fora o que não serve mais. Obrigados a olhar pra bagunça que o furacão passou e deixou, foram, um a um, arrumando seus livros, seus documentos, suas vidas. Cada coisa no seu lugar, a brisa leve a soprar, eles ali, juntos! 
Olhavam-se com a mesma expressão daquela tarde. Um sentimento que ainda não tem nome, que vai além talvez do tal amor tão já batido e surrado, aflora dia-a-dia. Outros ventos sopram mas já não bagunçam mais a casa. As coisas estão indo pro lugar, as gavetas e armários estão de portas fechadas, imunes ao sopro do vento que por vezes teima em
baguncar tudo por lá. 
A brisa corre,  livre, leve. O sentimento que cresce, que se mostra num olhar, num gesto; é esse sentimento que mantém as portas dos armários e das gavetas fechadas, protegidas do furacão. É o inominável sentimento que mantém a brisa leve, que controla o tornado deixando-o breve, que faz da vida uma tarde de verão: sol, mar, vento e alguém pra amar. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Viveiro

Há que se ter asas! Há que se usar as asas pra alcançar voos distantes, de eterna busca e aprendizado. 
Gente que apara a asa do bicho, e que acha que colocando numa gaiola com comida e água tá tudo bem; gente que se satisfaz pensando que um canto de alegria pela manhã e um pela noite pode traduzir uma suposta felicidade do pássaro; ledo engano: asas cortadas, vida ceifada. Gente assim deveria pelo menos parar pra olhar no olho do bicho, ver sua alma ali presa naquela gaiola, ver que suas asas aparadas, feitas pra voar mas agora inúteis ao propósito, estão sedentas pelo céu, pelo ar, pela descoberta das cores da vida tão grande lá fora e tão pequena na gaiola.
Gente que cria pássaro em viveiro deveria saber que pra ser inteiro ele precisa bater as asas, forte, firme! Ele precisa saber que pode ser pássaro, que é bicho solto, que o viveiro tá lá mas que a porta da gaiola tá aberta. Que ele, livre, pode voar e voltar porque essa gente que cria, cuida, ama e entende que pra ser inteiro ele tem que ser bicho, de prisioneiro basta o homem. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mais Uma Noite

Acordar e dormir, inúmeras vezes. Sentir a noite passar e o dia chegar, olhos vidrados numa janela. 
Uma cidade lá fora, que ri e que chora. Um mundo de luzes e depois de breu e silêncio. Só a chuva cai, só o vento sopra leve de vez em quando. 
A cama fria quase vela a quem nela se deita. As paredes parecem se aproximar cada vez mais, criando uma redoma de cimento e brancor. E a chuva ainda cai lá fora. 
O barulho do silêncio ecoa: o som da respiração, um carro que passa na rua, um talher que cai no andar de cima. A cabeça gira a mil por hora, os pensamentos vão e vem, incessantes, o corpo padece. 
A noite segue, fria, sem sentimento, sem perdão. O teto forma desenhos, forma histórias, traz memórias, refaz momentos, inventa sentimentos. O teto é a tela, limpa, em branco. A mente que faz loopings sem sentido, pinta com cores frias, joga a tinta preta, pinta de novo e agora cores quentes se misturam a todas as outras. 
Quando a manhã chega, as primeiras luzes começam a aparecer, as tintas misturadas formam agora um painel de cor e movimento. A vida tomou formato de tudo e nada naquele teto branco, naquela noite escura.