quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A Estrada

Somente andava. Via tantos caminhos à sua frente e andava sem rumo.
Não sabia o que queria e obviamente não fazia ideia para onde estava indo.
Andava. Sem direção certa, sem propósito, sem saber o motivo.
Com o tempo os caminhos tornaram-se apenas um e andar não mais o satisfazia. Ao ver aquela estrada longa sumindo no horizonte começou a tentar correr. 
Acelerou o passo, respirou ofegante, sentiu pulsar forte o coração no peito. As pernas queimavam, não era seu costume correr. Andar era fácil, tranquilo, não causava nenhum desconforto. Mas aquela emoção era maravilhosa! Correr lhe trazia a liberdade, o vento no rosto, a sensação de poder mais.
Ao ver que não tinha outra estrada além daquela questionou-se. Duvidou se seria mesmo aquele o caminho a seguir. Correndo chegaria rápido e a um único destino. A julgar pelo caminho, cheio de curvas e emoções, o destino final certamente seria fantástico. 
Mas o que fazer com o medo que morava em sua mente? O que fazer com aquela estranha sensação de não saber onde aquele caminho ia dar? Como agir diante de um único caminho, tão mágico e perfeito que dava até pra desconfiar?
Desacelerou, pensou em voltar a andar. Quem sabe trilhar uma rota alternativa, um novo caminho. Poderia chegar ao tal destino por um atalho, uma estradinha de terra, menos certa. Voltou a olhar pros lados, o objetivo saiu do foco. Perdeu o sentido daquela corrida fantástica. Não sabia mais pra onde ia ou o que queria. Se assustou com a probabilidade da felicidade plena e, acostumado a não ter pra onde ir, ficou parado.
Sem sair do lugar olhava pros lados e perdido se perguntava onde foi que errou. Por que afinal o medo o paralisou? 
A estrada estava lá, firme, pronta a ser percorrida. O destino estava lá, certo, pronto a ser alcançado. Resolveu pegar um atalho por medo das adversidades da estrada. Eram muitas curvas, necessitava cuidado para atravessar a estrada. Foi mais fácil olhar pro lado, tentar uma estradinha de terra, um atalho. Foi mais fácil não ter objetivo, não chegar a lugar nenhum, não arriscar, não lutar.
A estrada no mesmo lugar permanece. Imóvel, com curvas emocionantes a serem percorridas. O destino é certo e lindo! Mas não há caminho fácil, não há objetivo concreto sem a vontade indomável de alcançá-lo. 
Requer coragem se entregar à busca. Requer audácia, sabedoria para escolher a estrada a seguir. Requer amor sincero, desprendido pra viver cada emoção.
A vida pede pressa, a estrada tem um fim.


domingo, 13 de outubro de 2013

Linguagem do Amor (I)

É mais que o nome, que o título, que o rótulo.
É a essência, a promessa velada, a felicidade revelada em cada minuto que se vive.
É a certeza da paz, do entendimento; mais que isso, é o comprometimento com o cuidado, com o afeto, com o querer ser do outro. E não como posse seja lá do que for, mas como ser com o outro; ser mais, ser melhor. Fazer acontecer o que até agora parecia devaneio.
Viver dia após dia com a certeza de que esse outro dia vai chegar. Dormir separado pensando em estar junto e dormir junto pensando em mais nada.
Sentir o bater do coração num abraço que une além de corpos, almas. O calor das peles que por vezes se confundem numa só, os olhos que mergulham nas almas, a respiração ofegante que se mistura quando tão perto estão, cara-a-cara, desvendado segredos sem nem uma palavra dizer.
Vivem noites e dias de felicidade, crescem juntos e por isso são tão maiores. O que vivenciaram antes nada mais foi que a preparação pra tudo o que vem agora: estão maduros, seguros, corajosos pra uma vida de alegria. Não há mais espaço pra desentendimento, dor, ressentimento, medo.
Se falam cada vez mais de perto, a língua do amor se faz presente ainda que indecifrada.
Decifrar a linguagem do amor seria, afinal, uma utopia?! E que graça teria?
Vivamos então para descobrir, todos os dias, um jeito novo pra falar de amor!




Só Hoje

Só hoje vou te olhar.
Só hoje vou me ver em você, por um instante.
Só hoje vou pegar sua mão e me sentir segura.
Só hoje vou te abraçar pro mundo parar.
Só hoje vai fazer sentido estar longe pra sentir saudade.
Só hoje vamos perder o sono pra ganhar amor.
Só hoje seremos só um pra dormir.
Só hoje viveremos como sempre sem nunca ter vivido.
Só hoje sentiremos para sempre sem nunca ter dito nada.
Só hoje entendo.
Só hoje.



Luz e Sombra

Sentada num canto, sozinha, esperava por uma resposta.
Chorava baixinho pra ninguém escutar,sussurrava palavras pedindo ajuda mas não conseguia levantar.
Abraçada aos joelhos, cabeça enterrada, sentia o vento que vinha da janela do outro lado da sala e seu barulho ecoava no vazio.
Era só ela, quis assim. Escolheu sentir dor até não aguentar mais, chorar até secar a última lágrima.
Reviveu cada tristeza, cada decepção, cada mágoa. Sentiu facadas no peito até a morte de cada uma de suas sombras.
Viu suas mãos frágeis tremerem e se deu conta de que esquecera de comer.
Viveu tanto tempo se alimentando de sofrimento que não sabia mais como ser feliz.
Pedia ajuda,sussurrava. Ninguém poderia ouvir, sala vazia.
Ergueu a cabeça, a claridade que vinha da janela formava sua sombra encolhida, esticava a imagem triste pela sala.
Olhou para aquela sombra comprida, amarga, sem movimento, e decidiu ser mais.
Apoiou na parede, levantar seria o primeiro passo. De pé a sombra já tinha outra dimensão e, ao movimentar os braços, fez-se voar por toda a sala.
Sorriu com as possibilidades de forma na luz, de infinitas sombras remexidas. Arriscou um passo, dois, vários! Abriu a porta.
Sentiu o clarão inundando a sala, abriu todas as janelas. A sombra sumiu. Não havia mais espaço para ela. A claridade ainda incomodava os olhos, mas o sorriso foi imediato.
Atravessou  a porta, a sala ficou pequena demais pros seus sonhos. 
Lá fora, lhe esperava seu anjo. Protetor, amigo, esteve ali todo o tempo: guardando sua luz, velando sua dor, esperando por sua redenção enfim.
Como anjo que é, fez-se onipresente, apareceu quando menos esperou pra segurar sua mão, amparou seu passo, aninhou num abraço.
Acolhida, amada, segura; ela se deu conta de que podia mais. Vendo a luz que entrava na sala quis saber de onde vinha e foi em direção ao anjo que apenas sorria.
Passar pela porta foi seu maior desafio depois de conseguir escapar da sombra que há tanto a consumiu.
Um sorriso do  anjo! Seus braços abertos, um sol sem fim que brilhava e esquentava seu coração.
Saiu! Livre, certeira, jogou-se naqueles braços, guardou aquele abraço e viveu aquele momento pra nunca mais esquecer.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Com o mercado imobiliário em alta, as pessoas estão loucas atrás de apartamentos, casas, conjugados, quartos.
Há quem se contente com pouco, há quem não se contente com nada. Há ainda aqueles que procuram, procuram e nunca acham porque estão atrás do imóvel perfeito.
Placas de "aluga-se" quase não são mais vistas; não dá tempo de colocar. É um entra e sai de inquilinos que sequer o proprietário consegue pendurar a tal placa.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

5 Minutos de Desabafo (II)

Corpos que não se viam, não se sentiam.
Corações que não se conheciam, não se reconheciam.
Vidas que se encontraram, se misturaram sem saber por que razão.
A distância era grande, repeliam-se; talvez já contassem com o perigo da proximidade.
Por vezes o pensamento fugaz vinha e ia. A mera possibilidade já era tida como inviável.
Corpos que se chamaram, se quiseram.
Corações que se reconheceram, os guiaram.
Vida que desde sempre os uniu e na hora certa cruzou seus caminhos.
Sem mais distância, sem mais perigo, sem mais. 
Os olhos se viram, as mãos se tocaram, as bocas entreabriram.
A respiração cessou por segundos, o peito palpitou por minutos, a noite se fez dia em horas que passaram rápido demais.
Corpos que foram um só. Corações que enfim se encontraram. 
Por vezes fica na ideia, no campo do pensamento, do querer sem saber o motivo.
Por vezes a intuição é ignorada, a razão fala mais alto, a emoção perde.
Mas essa foi a vez deles, foi a hora de viver, de ser mais feliz.
Foi a hora, o dia, o lugar. Foi a música, a dança, a incerteza. 
Foi o mistério, o querer, o ter sem saber.
Foram eles, juntos; um poder!




sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Me Conta

O que você faz? Me conta...
         Me diz o que você faz quando volta pra casa pensando no que você não disse por medo.
          O que você sente quando o sorriso dela aparece na sua mente, sem pedir licença, e te toma por inteiro feito um tsunami?
         Me diz com é que funciona essa coisa de querer sem saber se quer e de dizer sem falar nada; só digita, escreve; e nada.
         O que é esse arrepio que desce pelo seu pescoço quando ela sorri sem graça olhando pro chão e você, sem saber o que fazer, sorri de volta?
       Me diz!
     Porque eu preciso escrever o que é que acontece pra ninguém fazer nada, pra duas pessoas que se querem tanto não se mexerem. 
         Fala!
  Porque tenho que tentar elucidar esse mistério do olhar, essa mania de digitar, essa ausência de estar, ser, beijar.
      O que é mesmo esse "boa noite" e "bom dia" sem fim, essa agonia de não saber se vai, essa mania de não saber se fica?
    Diz pra mim, me conta, preciso escrever! 
     Essa fantástica fábrica de palavras não pode parar de falar sobre a magia das idas e vindas, da sedução, do movimento pro ser, do querer, do fazer. 
        É uma cabeça que matuta o tempo todo e que espera ansiosamente, diariamente, por paixões, amores, temores, suspiros, taquicardias. 
 São dedinhos nervosos a digitar a vida, a emoção de cada segundo da incrível vida!
        Me conta o que te prende, me conta porque não pode. 
Se solta e corre pra ela; tenho uma história pra contar!
Me conta...



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Casa própria ou aluguel?

Com o mercado de imóveis aquecido achei por bem escrever sobre o tema.
Vemos cada dia com mais frequência que as pessoas têm uma tendência ao aluguel, afinal de contas o preço de uma casa ou apartamento está pela hora da morte.
Costumo andar bastante, a pé mesmo por aí, e vejo muitas placas de vende-se. O problema é que o preço a ser pago é alto demais pra maioria das pessoas. O que percebo é uma busca incessante pelo sonho da casa própria concomitante ao "olho grande" do proprietário querendo o maior lucro possível. Não são analisadas as condições de cada um, qual história daquela busca, daquele ser humano que está ali por anos idealizando a casa perfeita, a vida perfeita que vai ter quando enfim entrar num lugar pra chamar de "seu", em como vai acomodar cada móvel, cada enfeite; em como vai poder furar as paredes, quebrar os limites, estabelecer outros novos. A casa própria tem, sem dúvida, suas vantagens! Mas ainda tem gente que prefere morar de aluguel, e acredito que também tenha seu valor. A possibilidade de conhecer novas vizinhanças, de sempre poder construir outras pontes, renovar de esperanças a cada chave nova que se tem nas mãos. É habitar e desabitar com a mesma facilidade, é ter a certeza do mutável, é viver sem a preocupação do tamanho dos móveis, sem o planejamento dos armários de cozinha, com caixas sempre preparadas pra sair, com o desapego tatuado pro próximo endereço. 
Nessa coisa toda o que importa mesmo é que o preço que se paga hoje em dia é alto demais pra qualquer escolha. Optando por comprar uma casa você se compromete inevitavelmente a longos e árduos anos de uma dívida que pode ser encarada como investimento, e aí vc vai feliz todo mês pagar aquele boleto, zela pela casa que tanto sonhou, continua investindo no seu imóveis e tal; ou fica peregrinando em busca de um apartamento que esteja em boas condições de entrar e morar, pelo menos por um tempo, onde o condomínio não seja caro demais, que tenha vaga de garagem, que seja perto de tudo, que dê pra chegar na praia de boa, que não precise de reparos e que tenha um proprietário bacana que entenda o seu lado caso vc precise rescindir o contrato antes do tempo. 
São mesmo muitas exigências... Compreensíveis pra realização de um sonho , cabíveis se você quer ter algum critério pra escolher sua morada pelo menos por um tempo. 
Agora, de boa amigo, se você curte mesmo é viver acampando por aí, de cidade em cidade, se aventurando sem rumo e sem
prumo; desocupa o lugar. Porque quem quer a casa própria jamais vai aceitar uma barraquinha de dois lugares.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Força do Verbo

Olhei, não viu.
Desci, subia.
Soprei, piscou.
Sorri, sorriu.
Abraçou, gostei.
Mais forte, relaxei.
Subiu, desci.
Olhou, não vi.
Passei, sorri.
Puxou, blefou.
Sem mais, beijou.
Gargalhei, gargalhou.
Andei, ficou.
Dançou, flertou.
Cantei, joguei.
Sem mais por quê, chegou.
Olhou firme, ficou.
Pegou forte, beijou.
Derreti, abracei.
Suspirei, congelei.
Arrepiou, adorei.
Ficamos, gostamos.
E assim, fomos nós.
Ponto!

É o verbo, a ação.
É o movimento, a sensação.
É o dinamismo do que ainda está por vir.
É o ceticismo pelo que pode iludir.
É viver uma noite que vira dia.
É um dia que será noite.
Um dia...





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Os Comediantes Estão de Volta

Incrível como o mundo está cheio de comediantes!
Tem pra todo gosto, desde os mais sutis e inteligentes até aqueles das piadas batidas, sem graça, que sequer um sorriso de canto de boca a anedota vale.
E com essa moda do stand up??? Agora eles realmente acreditam que não precisam mais de hora nem lugar. Em qualquer oportunidade que considerem a rua vira palco e o horário torna-se propício a seu showzinho particular.
Adventos tecnológicos também colaboram.
Piadinhas via rede social, aplicativo de celular, quadrinhos montados cuidadosamente ( ou nem tanto...). O fato é que a arte de ser comediante não sai de moda para esses indivíduos; o importante é a sua graça, a sua risada, a sua diversão.
Falo aqui, que fique claro, dos amadores! Comediantes profissionais não costumam perder  seu público. Pobres amadores, repertório curto de piadas sem sal, esforço mediano para ser minimamente razoável na arte de fazer rir.
O público parado, braços cruzados, tentando prestar atenção, procurando graça naquela desgraça de apresentação. Enquanto isso o comediante de meia tigela, alheio à reação da platéia, ri e gargalha de sua tiradas mal interpretadas.
Comediantes em início de carreira, atentem para o seguinte: apesar do destaque inicial para um público em grande quantidade, apesar das gargalhadas desenfreadas, das caras e bocas a cada nova performance; sejam fortes: elas não entenderam a piada! Não entenderam ou simplesmente não prestaram a menor atenção, não era esse o foco. São uma maioria alienada... Ou talvez gostem de piadas sem conteúdo (compatíveis com sua capacidade de entendimento).
O bom público, o que não se contenta com qualquer coisa, o que quer piadas inteligentes, que contribui pra apresentação; esse público não quer mais as velhas anedotas sem sal, as tiradas idiotas de sempre. Precisa de identidade, de verdade, de personalidade.
Faça sua comédia de maneira sagaz, cuide do seu público com carinho.
Deve ser muito desagradável marcar uma apresentação e receber gargalhadas pelo simples convite ao invés da piada.



domingo, 18 de agosto de 2013

As Grades

As grades estão lá, sempre estarão. O que prendeu a vida toda permanece no mesmo lugar; não é interessante o movimento pro que está preso e assim vive bem e feliz.
A fera que acha que é o rei das selvas na realidade virou um gatinho domesticado, que ao primeiro sinal de ração ou biscoitinho de peixe abana o rabo, senta e abre a boca.
A fera só ruge pra fazer teatro, pra assustar quando tem público pra bater palma. Sozinho, cercado por grades apenas ronrona, no máximo grunhe de leve quando a fome aperta.
Habituou-se ao pouco espaço, à comida sem gosto de todo dia, ao tratador sem sentimentos. 
Não tem parceira, não tem amigos, vive só. Inúmeras tentativas foram feitas e a fera ao ver qualquer outro de aproximar rosnava forte, simulava um ataque perfeitamente mortal - simulava. Sabia por dentro que jamais mataria, jamais atacaria porque a covardia era e sempre seria uma característica de toda aquela coragem fingida.
Para o público do outro lado das grades a fera era pomposa, forte, incontrolável. Era um barulho tão alto que crianças chegavam a chorar de medo e a fera só conseguia pensar no seu pseudo-sossego, na paz que seria manter-se ali só, sem ninguém a importunar seu destino de solidão.
Com o zoológico aberto era o rei, o animal mais cobiçado a ser visitado. Estufava o peito, alinhava a juba, levantava as patas como um lutador de boxe. Nada... Era por dentro apenas tristeza, dor, solidão, saudade, covardia. Pensava o tempo todo no que deixou de viver quando vivia solto na floresta, quando tinha uma família, quando teve a oportunidade de ter amigos. Pensava no que não fez enquanto o tempo, impiedoso, passava. 
A fera virou um gatinho, num canto encolhido. O futuro era só deixar passar o tempo, assustar aos que se aproximassem, esperar o fatídico dia em que não mais pudesse fazer absolutamente nada. Aguardava ansiosamente pelo dia em que fosse de fato esquecido ali naquela jaula, apagado da memória de todos, ou só lembrado pelo esplendor de outrora. 
Passou a viver de saudade do que não pôde ser, de vontade de ser o que não conseguia. O dia passava, a noite também e o presente tornava-se ontem com a mesma velocidade em que o amanhã se tornaria hoje e a fera em nada iria crescer, evoluir.
As grades continuavam lá, imaginárias agora. Foi solta, alforria pela velhice. Jogada na selva pra aproveitar o fim dos seus dias ( ela pensava...). Diante de tanto espaço e tempo livre, só seu, não soube o que fazer. Não tinha forças, não tinha vida, não tinha brilho no olhar. Procurou por sua ração, por seu biscoitinho, por seu canto gelado no cimento pra dormir. Olhou buscando a platéia pra rugir e se fazer fera - nada!
Com medo daquele silêncio perturbador achou por bem voltar ao zoológico. Preferia viver em segurança, na certeza das grades que o faziam fera domada, gatinho de madame. Preferia ser ator no seu cenário cruel e frio que ser dono de sua liberdade. Preferiu ser pouco ou quase nada do que ser feliz.
Felicidade dá trabalho e requer coragem; não é mesmo pra uma falsa fera.
Só é feliz quem é fera de verdade, quem abre o peito pro desafio, quem ruge, quem grita, quem pula a grade pra ser livre.
As grades estão lá, sempre estarão. E você, vai fazer o quê?



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Parabéns, Clá!

Caí. Muitas vezes, inúmeras. 
E a cada vez que caí ela me ajudou a levantar.
Chorei. Infinitos dias e noites eu chorei.
E todas as vezes que as lágrimas caíram ela me ajudou a enxugar.
Juntas celebramos Natais, Páscoas, aniversários. Celebramos a vida todos os dias desde o primeiro dia há décadas atrás.
Juntas velamos os nossos, oramos pelo seu progresso, resistimos bravamente à saudade que nos consome alguns dias.
Juntas vimos o amor nascer em cada momento da vida, criamos um irmão malcriado e insuportavelmente carinhoso ( tanto que nem sempre dá pra brigar com ele...).
Juntas conseguimos formar uma família com avós, tias e tios em dobro, primas que também considero minhas, uma casa pra descansar o coração.
Sorri. Todas as vezes que nos encontramos sem querer ou por querer, eu sorri. 
E a cada novo momento ao longo da vida que nos encontrarmos será assim porque é a sua presença e apenas isso me basta. 
Abracei. Com o todo o amor que tenho abracei sua vida, seus pais, seu irmão, seu marido, sua família. Abracei como sei que ela fez, faz e continuará fazendo por cada um dos meus.
Juntas somos invencíveis porque é essa a nossa missão. Seguramos uma à outra quando achamos que vamos tombar. Essa é a nossa certeza.
Desde sempre e para sempre seremos nós.
O aniversário é dela mas o presente é todo nosso.






sábado, 10 de agosto de 2013

Saudade Pra Comemorar

Uma saudade sem fim me toma. Lembro de cada som, de cada cheiro, de cada gesto dele.
Me esforço diariamente pra não perder nenhum dos momentos na minha mente. São muitos anos, mais sem do que com e a saudade ainda dói vez ou outra.
A que dói na realidade é a do que não tive oportunidade de viver. É aquela saudade esquisita do que queríamos ter vivido juntos. 
Muito mais que um dia pra ele, até porque nunca precisamos disso, é o meu furo no queixo, a minha sobrancelha, meu jeito sutil de ser legal só com quem eu realmente gosto. É sorrir e lembrar do cheiro de sabonete Phebo na hora de dormir, do barulho leve de ronco de madrugada, da vinheta do Supercine dos sábados à noite.
É uma música que toca, um mergulho em Ipanema, olhar o mundo da pedra do Arpoador.
É escrever Amorelli todos os dias da minha vida, olhar fotos e me ver nele - e vê-lo em mim.
É agora começar a escrever chorando e me ver de repente sorrindo ao lembrar de tantos e inúmeros sorrisos que recebi a cada vez que entrei no carro, a cada bom dia, a cada café da manhã que parecia almoço.
Sua vida está eternizada em mim. Sou e serei feliz todos os dias por tê-lo escolhido antes mesmo de aparecer por aqui. Aquela risada inconfundível jamais sairá do meu ouvido, o bater do seu coração quando deitava no seu peito pra dormir aconchegada, seus braços abertos pro abraço mais gostoso do mundo.
Foi o que pôde ser, me amou da melhor maneira, me cuidou e mais do que qualquer pessoa, me respeitou. 
Pai, obrigada por sua vida, pela nossa vida, pelo nosso amor.
Saudade boa, sorriso bom... E um vinho branco pra comemorar!



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Paredes Brancas

De tanto ser louca, cansou. Parou de espernear, de descabelar-se por qualquer coisa.
Os gritos cessaram, as palavras duras e sem fundamento calaram. Não podia mais, a energia esgotou-se e por fim deixou-a ali, estafada, exausta, sozinha.
Recostada numa das quatro paredes que a cercava ela ouviu aquele silêncio e sentiu dor; uma dor profunda e intensa que teimava em aumentar a cada  lágrima que escorria no seu rosto.
Aquelas paredes alvas, incrivelmente brancas, tão brancas que ofuscavam sua visão. Não enxergava com clareza e seu corpo pesava cada vez mais.
O silêncio deu lugar ao sussurro de um choro há muito contido. Não suportando mais seu próprio peso sobre as costas deitou-se.
Posição fetal, mão direita no peito, mão esquerda entre as pernas. Fechou os olhos com medo do que mais poderia ver se permanecesse olhando aquelas paredes.
Lamentou baixinho; só ela ouvia suas palavras soltas.
Lágrimas caíam uma a uma, olhos cerrados, cenho de quem está tendo um pesadelo e não consegue acordar.
Com os minutos passando vieram soluços entre cada choro contido; abriu os olhos devagar ainda com medo do que iria ver.
Silêncio. Paredes brancas. Nada mais.
Escolheu viver só, escolheu a clausura, escolheu não se entregar a nada nem a ninguém.
Não amou, não sentiu, não se permitiu.
Pensando ser forte, viveu.
Sendo fraca e só, morreu.




Um Abraço

Um abraço, um encontro de dois corações, um approach de almas.
Um abraço que vale por mil palavras, por olhares que nem sempre se encontram.
Um abraço que é muito mais íntimo que qualquer beijo de cinema, que tira o fôlego de tão apertado, que aquece o corpo inteiro em um segundo.
Um abraço que tira do chão e faz rir, que leva pra outra dimensão, que faz um sentir o coração do outro batendo forte, vibrando compassadamente a energia daquele momento.
Um abraço que se espera durante anos de quem está longe e que se guarda por mais tantos quantos forem necessários até poder abraçar de novo.
Um abraço com direito à corrida de braços abertos, segundos que antecedem o grande encontro, sorriso maior do mundo no rosto, risadas gostosas e o amor mais profundo sendo emanado de cada parte do corpo.
Um abraço de uma família inteira, um poema, uma canção, uma só voz.
Um abraço pra você que leu e ainda não ganhou um abraço hoje.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Carnaval Fora de Época

Confete, serpentina, água mineral, água de mangueira, água de gelo do isopor.
Música alta, música de bandinha, carro de som, trio elétrico, bateria de escola de samba, orquestra.
Pés descalços, pés de Havaianas, pés de sapatilha, pés de tênis, pés de sandália, pés de gente.
Colombinas, índios, bailarinas, palhaços, ciganas, super-heróis.
Criança, adulto, velhinho, bebês e até cachorros e gatos.
Na rua, na praia, na calçada, no asfalto, no parque, na praça, no metrô, no ônibus.
É em fevereiro mas começa assim que a festa junina acaba. O ano todo é carnaval.
Sonhamos com fantasia, com uma por dia. Queremos sorrisos, preferencialmente sem juízo.
Deixamos a alma descansar por 4 dias e saímos por aí com o corpinho a bailar.
Ansiosamente esperamos 361 dias por 4 de folia. 
Com os olhos cobertos de sonho ficamos amigos de todos, amamos por horas uma pessoa que acabamos de conhecer, iludimos e somos iludidos pelo possível e improvável "pós-carnaval".
Tem amor que é pra subir a serra e não tem tempo nem distância que dê jeito. O universo conspira e quando você vai perceber já está enlaçado.
Tem gente que veste fantasia pra se libertar, tem gente que se esconde pra ser o que não pode ser.
Tem gente que vive, sonha, corre na frente pra não perder a chance. Se joga no mundo, vai fundo! Cai no banco comendo um sanduíche, faz vergonha voltando pra casa e ainda assim é apaixonante!
Tem gente que mora longe, tem gente que tem família complicada, tem gente que é mimada.
Tem todo tipo de gente, afinal, é carnaval!
Como um milagre tem amor que dá certo, que funciona, que rompe essa barreira. Que na primeira oportunidade faz tudo errado mas que na segunda quer tanto, tanto que funcione que ganha, leva pra casa e não solta nunca mais.
E pra gente o que importa mesmo é o que sobrevive, que constrói a sua verdade, que tira a fantasia, reencontra sua alma e apresenta pra alma do outro.
É gente assim que vive 365 dias feliz, e não 4.


Castelo de Areia

É que ele não sabe, ou simplesmente não notou, que um dia virou uma semana, um mês, um ano.
Deixou o tempo passar e agora perdido procura explicação pro que podia ter vivido sem ter que explicar nada.
Ela ri lá de longe e o enxerga tão pequeno que não consegue entender como pôde ter lhe visto tão magnânimo, tão grandiosamente perfeito.
De fato foi grande, foi forte, foi um pedaço do melhor que poderia ser. E aí residiu o erro: foi só um pedaço.
Ela queria o todo porque era o todo dela que estava disposta a dar. Mesmo ciente das consequências de sua doação desenfreada ela resolveu se jogar, já que não conhecia outro caminho pro amor naquele tempo.
Cresceu, amadureceu; com os ombros pra trás, peito aberto e cabeça erguida caminhou rumo à felicidade.
Esquecer foi uma decisão; deixá-lo no seu castelo cercado de muros intermináveis.
Livre pro mundo, pra tudo, ela seguiu e ele ficou. Permaneceu no seu castelo de areia que com uma pequena onda viraria ruína, nada mais.
Rei do seu mundo de ilusão, foi à torre mais alta numa esperança vã de avistá-la, quem sabe chamar seu nome, tê-la mais uma vez em seus braços como tantas outras vezes.
Do alto olhou e viu um universo enorme, um mundo de horizonte infinito - não a viu. Ou quem sabe não pôde enxergar já que o tempo e sua ilusão o fizeram cego pro que realmente tem valor.
Suspirou, lembrou de momentos bons que não voltariam mais. Pensou em cada palavra dita a ele e em cada uma que ele deixou de dizer. Viveu e reviveu os dias e noites ao lado dela, sentiu seu cheiro... Ah, aquele cheiro! Capaz de ludibriar todos os sentidos ao mesmo tempo, capaz de fazer sua mente se perder em segundos. A luz daquele sorriso que brilhava ao amanhecer nos seus braços, o som leve da voz rouca dizendo bom dia.
Ali se viu perdido em lembranças, era o que restava. Preso, cercado por muros de ilusão, escolheu viver e arcou com a solidão de cada dia que viveu e ainda viverá sem ela.
Seu castelo se dissolveu na primeira onda que veio mais forte. Ela tinha nome: SAUDADE. 
Levou consigo muros, torres, castelo; levou tudo. Deixou pra trás apenas restos de areia e a saudade sem fim do que o rei deixou de viver por medo de ser feliz.





domingo, 23 de junho de 2013

Aprendendo a Voar

Só agora, portadora das asas da minha vida e aprendendo a voar, me sinto livre.
Sempre disse ser livre, adoro essa palavra inclusive, mas agora tendo total e irrestrito conhecimento do que sou, avisto a liberdade como jamais pude enxergar.
Não há mais necessidade de gestos, ou me travestir em roupas diferentes, ou me vangloriar por não ser igual a todo mundo e achar que de alguma forma isso me torna livre. Ser livre está além disso. É ser exatamente o que sou, assumir isso pra mim e, com tal convicção, simplesmente sorrir.
Tantas foram as vezes em que precisei dizer em alto e bom som aos outros que era "maluca", que não era normal, que era o contrário do mundo. Tantas vezes precisei me olhar no espelho pra tentar me encontrar quando na verdade eu estava aqui o tempo  todo, dentro de mim, e nenhum espelho poderia me mostrar a não ser o da minha própria alma.
Foi só agora, quando me vi, quando me achei perdida depois de tantos anos me escondendo e fingindo me achar, que pude abrir os caminhos, desanuviar a mente, fazer valer meu sorriso que sempre foi sincero mas nunca foi tão feliz.
Só agora, dona das minhas asas, me sinto capaz de voar. Não há mais rédeas, visto que o controle da minha vida é meu e de ninguém mais. Vejo pessoas adoráveis por perto e consigo tê-las pra mim, trocar com elas minha energia e não mais só dar, sendo sugada até o último suspiro.
Dona de mim, o futuro é hoje, construído a cada minuto. Sem tempo pro que não vale a pena, um "oi" bem educado é o suficiente pro passado esquisito que por ventura se aproxime. Não há mais tempo nem energia a desperdiçar com gente que não está preparada pra viver de verdade. Preferem "Matrix", preferem ser sangue-sugas ou se permitirem enganar. 
É assim: você se desconstrói, como dar um "rew" na fita ( sim, ainda sou do tempo da fita!). Vê toda a sua vida passar diante de você - chamem como quiser, eu encaro como uma experiência de "quase morte". E nada melhor do que quase morrer pra renascer melhor. Ver a sua vida passar e constatar que poderia ter sido diferente é o primeiro passo; ter certeza de que você fez tudo o que podia, fez  o seu melhor; é o segundo. 
Trabalhar com a realidade de que o tempo não volta mais; de que você tem a escolha de viver sofrendo eternamente pelo que fez ou não fez, falou ou não falou, pensou ou deixou de pensar; o terceiro. Enxergar a sua responsabilidade ( e é SUA a responsabilidade) pelos seus atos e parar de culpar os outros usando atitudes que feriram ou magoaram como desculpa pra atitudes igualmente duras; o quarto. Projetar suas metas e fazê-las acontecer a partir de agora porque não há minuto a ser perdido com preocupação sobre o que pode acontecer ( acontecerá alguma coisa, certamente, e não é a sua preocupação que impedirá tais fatos, desculpe lhe dizer, você não tem tanto poder!), o quinto. Que fique claro, a ordem destes fatores será determinada por você, ninguém mais, afinal a vida é sua, correto?
Compreendam, não falo de sair por aí fazendo o que "dá na telha", sem pensar em mais nada ou ninguém. Digo apenas que encarem as possibilidades de frente, não mais de lado, esgueirando-se das oportunidades por medo.
Se jogue, invista em você, no seu potencial. Estude todas as variáveis do que pretende e trabalhe com a realidade dos fatos. Pare de se boicotar com mentiras inventadas pelo seu cérebro ou arraigadas por palavras ouvidas a vida toda.
Reinvente-se, reorganize-se, tenha coragem!
A vida está aí, linda bem na sua frente, lhe abrindo um sorriso imenso e dizendo "Vem!". Mas a vida é pra aqueles que tem coragem de abrir as asas e voar, infinitamente, sem rédeas, sem controle remoto.
Repito infinitas vezes, como repeti muitas até entrar na cabeça e no coração:


"MAIS CEDO OU MAIS TARDE QUEM CATIVA A VITÓRIA É AQUELE QUE CRÊ PLENAMENTE..."




sábado, 15 de junho de 2013

É a sua Vida!

Renasci! Quando pensei tudo estar resolvido, definido, esclarecido; o caos se instalou.
Não há evolução sem movimento; a inércia, como a própria se define, não age, não reage. Simplesmente estática espera a banda passar, sem mais.
Renasci! Me vi nua como jamais imaginei ficar. Nua diante de tantos desconhecidos, minha alma gritou com todas as forças suas dores, seus horrores. Nua como nunca me permiti estar, gargalhei, sorri e chorei por uma alegria pura e plena.
Renasci: nua e livre! Sem nenhum julgamento, sem nenhum dedo apontado, sem carga nos ombros, sem culpa nos olhos tristes e amargurados pelo tempo que não volta mais. Revivi pra renascer e renascida percebi que deixando pra trás o que já não posso mais levar comigo abro portas e janelas pro novo, pro belo, pro lindo e maravilhoso mundo das possibilidades.
Carregando uma bagagem pesada fica inviável agarrar qualquer nova oportunidade que se apresente; não há espaço, não há força nos braços pra carregar tamanho peso.
Foi deixando o peso que não era meu, o passado que me convenceu de que eu não poderia mais, as verdades que não passaram de mentiras sinceras, meus amados e inesquecíveis momentos de saudade... Foi só quando pude deixar tudo isso no terreno das memórias que consegui respirar, profundamente, calmamente. Foi passo a passo, num bater acelerado de coração que me vi perdida e renascida me encontrei, incrivelmente, dentro de mim mesma - onde sempre estive aliás!
É assim: eu não sabia que eu não sabia, mas tinha certeza que sabia tanto que procurava nem saber mais.
Estranho, complicado? Vejo de maneira simples: aprendi a enxergar com os meus olhos, com os de mais ninguém.
Afinal de contas, É A SUA VIDA!


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Chega Quando?

Gramado verde, uma única árvore digna de filme da Disney bem no alto do monte que se formava ao fundo da cena. Ela linda com seu vestido azul mais claro que o céu girava de braços abertos morrendo de rir da tontura que o rodopio provocava. 
De longe, sentado na sombra da árvore ele apenas a observava. Escutava seu risinho juvenil e mesmo sem conseguir definir muito bem suas feições, sabia, era linda! Conseguia apenas ver aquele cabelo de cachos muito negros balançando no vestido azul - podia sentir aquele sorriso.
Ela parou de rodar e se deixou cair na grama. Barriga pra cima, como uma estrela, braços e pernas espalhados, olhos pro céu. Pôde sentir os passos se aproximando - o sorriso despareceu. Pensou estar sozinha, quem seria?
Ele, atraído de maneira irresistível pela imagem turva daquele sorriso levantou-se e decidiu descer o monte. Precisava conhecer a dona do vestido azul e dos cachos cor de graúna.
Ela permaneceu deitada, pensou assim estar escondida na grama que crescia alta. Ele chegava mais perto, lentamente. Para não assustá-la simplesmente pôs-se a rir; achou engraçado o suposto esconderijo que deixava seu vestido azul esvoaçante totalmente visível.
Ela sentou-se indignada, quem ousava afinal rir dela dessa maneira?
Ao vê-lo fugiram-lhe as palavras; os olhares disseram o que a distância de apenas a descida de um monte já havia decifrado. Ele estendeu a mão pra ajudá-la a levantar, ela tentou não sorrir, inutilmente.
Algumas palavras, deram as mãos - ela o convenceu a girar também!
Ela poderia ser só mais uma e se perder no mundo como tantas.
Mas quis ser única e fazer o mundo dele parar de girar por alguns segundos só pra fazer aquele momento acontecer.
Rodopiaram até cair na grama, os dois, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Quando imaginariam que uma distância tão curta quanto aquela do monte separaria um momento de solidão de um momento de felicidade tão plena como aquele?
Ela pensou ser menina pra viver cercada de nuvem e sonho.
Mas vendo-se mulher pôde realizar seus desejos e tornar realidade enfim, aquele beijo.
Um cenário perfeito, a princesa, o príncipe. Um conto de fadas.
A pergunta é: 
E a vida real, chega quando? 




A Porta da Frente

Fechou a porta. Achou por bem trancar dessa vez. Cansou de só deixá-la encostada na esperança de que enfim ela fosse aberta, de que por ela passasse, de que por ela entrasse alguma luz, uma esperança.
Olhou pra chave. Pensou, uma lágrima brotou no fundo do olho, teimava em cair. Apertou forte os olhos, seu semblante mudou, fechou com força a chave na mão. Sabia que se trancasse a porta jogaria a chave fora e aí nunca, nunca mais teria volta. 
Abriu os olhos, respirou fundo. Olhando viu na palma da mão a marca dos dentes da chave; ficariam marcados ali por alguns instantes, somente o suficiente pra tomar sua decisão.
Caminhou poucos passos, empurrou a porta, enfiou a chave na fechadura ainda esperando que a campainha pudesse tocar ou que chegasse batendo desesperadamente na madeira maciça pedindo pra abrir. Nada.
A marca dos dentes saiu da mão, hora de trancar a porta. A marca no peito não saiu, não sairá tão cedo. Mas se não há mais jeito, se já não é mais tempo de viver, se o caminho que passa através dessa porta já não leva a lugar nenhum o que fazer senão fechá-la? Deixar uma porta encostada pra sempre impede que a vida siga em frente, impede que outras portas se abram, por simples falta de oportunidade.
Tranca a porta, duas voltas pra não ter mais dúvida. Joga a chave fora, quebra, faz qualquer coisa. 
Pela porta da frente não passa mais. Caso um dia queira chegar a esse coração de novo, meu caro, procure outro caminho: outra porta, pule a janela, quebre a parede.
Aqui, meu bem, só mandando fazer outra chave!




domingo, 26 de maio de 2013

Um Cachorro Pra Chamar de Seu

Ah, nós mulheres!
Sempre tentando achar desculpas pro imperdoável, explicações pro que não tem razão. Inventamos compromissos de última hora, celulares no vibracall ou simplesmente com a campainha baixa o suficiente pro sujeito "não escutar tocar", caixa postal lotada e aí não deu pra gravar a sua mensagem, a bateria acabou e ele estava na ilha perdida de Lost e não tinha NENHUMA tomada pra carregar nos 5 dias que se seguiram desde que você ligou, o whatsapp travou e aqueles dois benditos tracinhos que apareceram pra você não apareceram pra ele porque houve um boicote à tecnologia do celular do cidadão; ele odeia a Tim, ou a Vivo, ou a Claro, ou a Oi ( alguém ainda tem Oi?!) porque as mensagens de texto incrivelmente não chegam, não se sabe por que motivo.
Não ria, é assim. E assuma, nós fazemos isso: nós inventamos todo tipo de desculpa absurda e esfarrapada pra não admitir que simplesmente o sujeito não quis atender, não quis retornar, não quis responder, não quis ligar pelo fato de que não era interessante para ele fazê-lo naquele momento. É assim, ele são assim, nós somos assim... Eles mentem, nós fingimos que acreditamos, eles acham que enganam, nós nos irritamos, eles acham que está tudo bem, nós sabemos que não está, eles voltam como se nada tivesse acontecido quando lhes é interessante...
E é aí, é nessa hora que temos que ser fortes! É no momento da "volta do cão arrependido". Sabe aquele vira-lata? Aquele que você pega todo magrinho na rua, abandonado na madrugada, cheio de pulga, maltratado, com fome e frio? Leva pra casa, dá banho, carinho, comida, doa seu tempo e sua energia. Um belo dia é só ver a porta aberta que sai o cão sem-vergonha correndo porta afora e some pela rua de novo. Você chora, se desespera, corre atrás pelas calçadas, pergunta a todos pelo cachorro, fica se perguntando o que fez de errado pro cãozinho que você cuidou com tanto carinho ter fugido desse jeito... Chora mais um pouco e o tempo vai passando...
E aí você lembra da sua mãe dizendo certa vez " - Galinha de casa não se corre atrás!". 
Adivinha? Quando você está lá, linda, bela, contente, pronta pra comprar um cachorrinho novo, lindo, com pedigree e tudo, quem aparece? O cão arrependido! Com as orelhas caídas, o rabinho entre as pernas, aquele olhar que conhecemos tão bem. Dá a pata, deita de barriga pra cima pedindo carinho, choraminga - sempre o velho charme.
Seu coração dói, as lembranças do tempo feliz que viveram juntos voltam, o cão conhece tão bem a casa, a rotina, seus hábitos, você... Sabe quando está triste, feliz, quando está chegando em casa, fica bem quando você sai; e além disso, agora você já sabe que se deixar a porta aberta ele pode até ir embora, mas vai voltar. 
E é nesse momento que você, mulher inteligente, ignora suas faculdades mentais e se permite enganar, e escolhe acreditar, e prefere não tentar uma coisa melhor. Bate a cabeça na parede até quebrar ( a cabeça!), dá murro em ponta de faca, seca gelo: use a expressão que quiser! Você, mulher, insiste, persiste e não desiste de alguém que simplesmente nem investiu em você, ou investiu de maneira insuficiente.
Acredito que estejamos um tanto fartas de tantos cachorrinhos fofinhos que depois de sugar tudo o que temos de bom vão embora em busca da próxima vítima pra vampirizar. 
Pode soar como exagero, mas ora bolas, estou aqui pra falar o que penso assim mesmo, indiscriminadamente. Lê quem quer e se a carapuça lhe servir meu caro, repense suas atitudes e seja uma pessoa melhor!
Queridas e lindas mulheres, por mais difícil que possa parecer, tenham esperança! Em algum lugar nesse imenso canil tem que ter um cãozinho lindo, com pedigree e disposto a ser domesticado, tratado, amado, sem ter que fugir toda vez que a porta for aberta.



domingo, 19 de maio de 2013

Amor, Por Favor, Se Vier...

Amor, por favor, se vier, que venha leve...
De pesado nesse mundo basta esse fardo estranho que insisto em carregar.
Amor, por favor, se vier, que venha breve...
Não tenho mais a pretensão do "pra sempre"; quero viver hoje e agora e que tudo seja tão forte e lindo que amanhã seja tarde demais.
Amor, por favor, se vier, que venha sereno...
Preciso viver essa calmaria de saber que nos seus braços me aninharei pra dormir e com seu "bom dia" acordarei a sorrir.
Amor, por favor, se vier, que venha moreno...
E quando digo moreno falo da sua pele de sol, do seu cheiro de sal, da sua tez molhada de suor. Nada de cor, tudo de adjetivo, moreno é o que me traz a naturalidade de ser livre como eu sou.
Amor, por favor, se vier, que venha pulsante...
Tenho urgência de vida, de energia, de batimentos cardíacos acelerados. Traga consigo as baterias de escola de samba do Rio, a percussão dos trios elétricos de Salvador, traga a alegria que me alimenta a alma.
Amor, por favor, se vier, que venha errante...
Não gosto de gente certinha, que vê o defeito como algo ruim e não como a oportunidade de fazer algo melhor ou simplesmente como algo diferente. Gente perfeita demais é chata e não vive por medo de deixar de ser.
Amor, por favor, se vier, é pra ser amor.
Tô cansada de paixão camuflada de amor, de tesão fantasiado de amor, de amizade querendo ser amor.
Vem com tudo, vem forte, vem arrasando por onde passar, eu aguento!
Prefiro reconstruir meu castelo do que passar a vida toda num palácio de cristal.




Olhando Assim ou Só Uma de Domingo

Olhando assim ao redor vejo só uma fumaça esquisita.
Ela é quase colorida, tem uns tons pastéis e um cheio de algodão doce que acabou de virar nuvem no palito.
Olhando assim pra frente vejo o sol que sempre brilha no final de tudo.
Ele ilumina, aquece, faz florescer, faz morenar, faz serenar meu coração e minha alma.
Olhando assim pra trás, só pra tentar entender o que aconteceu, vejo um caleidoscópio de cores, imagens, sons. Vejo gente que me amou e que amei, vejo a vida que sonhei e não vivi, vejo os momentos que nunca imaginei viver e que me fizeram tão feliz. 
Olhando assim pra esse espelho aqui e agora vejo essa mulher tão segura do que não quer, tão ciente do que é, tão sabida de sua verdade, de sua vontade. A mulher que foi construída por pais amorosos, por amigos adoráveis, por amores inomináveis.
Olhando assim pro alto vejo algo maior que me rege e me guia. Tem tantos nomes, tantos credos, tantas verdades. Não importa. Uma força maior me trouxe até aqui. Algo me faz continuar. 
Apesar da dor que por vezes ainda passa pelo coração, apesar da saudade estranha que a vida deixou na minha alma, apesar das coisas esquisitas que somos obrigados a ver as pessoas fazerem aos outros. Apesar de tudo isso, algo maior me dá força pra sorrir, pra seguir.
Olhando assim pra essa tela, agora, vejo a esperança dessas palavras chegarem ao máximo possível de corações. Não que eu seja uma pessoa dada a quantidade - longe disso - mas acredito que disseminar coisas boas traz de volta coisas ainda melhores e por que não alimentar de poesia e um pouco de rima a vida tão reta e cheia de prosa do seu dia-a-dia?



domingo, 12 de maio de 2013

Dia das Mães

De todas as experiências que vivi
De todas as emoções que senti
De todos os amores que amei
De todas as vezes que senti meu coração acelerar
De todas as maneiras que pensei saber amar
De todo sentido que pensei haver na vida
De toda razão que ali foi perdida
De todos os sentimentos aquele foi o maior
De todos os momentos aquele foi o melhor
De todas as horas e dias 
Eu faria minutos pra viver aqueles segundos
Letícia.

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Foi numa tarde de fevereiro, num dia de sol, numa véspera de folia. 
Foi uma espera de alegria, foi uma ânsia por um rostinho, por um choro, por uma criaturinha frágil e tão minha.
Foram meses que valeram por anos, foram certezas que passaram por enganos para tantos e que pra mim eram uma coisa só: ELA. 
Foi um contentamento, uma vida que cresceu e me trouxe outra vida, outra chance de ser melhor.
Foi Letícia, foi a minha Lelê antes de ser qualquer coisa de quem quer que seja. 
Fui mãe antes mesmo de saber o que eu era, e antes mesmo de querer saber eu era dela porque essa era eu dali pra frente, MÃE.
O medo era pequeno diante da alegria de gerar uma vida e à medida que ela crescia aqui dentro alguma coisa maior que tudo me fazia forte, me trazia sorte, me fazia mais, dava à ela a paz.
Ser mãe é se comprometer à doação, ao amor descompromissado consigo em prol de outro ser, é ver de dentro pra fora, é sentir outro coração que não o seu e chorar de emoção. 
É comer coisas esquisitas, tomar vitaminas infinitas, dormir mal com uma barriga que parece nunca parar de crescer. É fazer xixi mil vezes, comer doce, salgado, doce, salgado - e nunca saber o que quer comer depois... É uma explosão de hormônios, é uma paixão por um pedacinho de gente, são sapatinhos pra um "bebê-centopéia". 
Ser mãe é ter o carinho de rezar pelo seu anjinho todas as noites, de pedir que algo maior e melhor cuide dela por você. É ter aquela imagem nítida dos seus melhores 5 minutos da vida inteira; os 5 minutos pelos quais você viveria tudo de novo só pra ouvir aquele choro, pra ver aquele rostinho tão parecido com o seu e ter certeza que no mundo o seu amor um dia tomou forma de gente.
Fui mãe por tão pouco tempo mas aqui dentro sempre serei. Ela ficou marcada numa cicatriz na pele e na melhor parte da minha alma. Viveria cada dia e cada hora para ter cada segundo daqueles minutos de volta.
Pra quem teve a oportunidade de viver essa experiência mágica, parabéns pelo dia de hoje! Gerar uma vida, dar a uma criança a oportunidade de ter uma vida melhor, dar a um ser humano a dádiva de ser mãe; são realmente presentes de Deus. Acredito que devamos apenas agradecer: como filhos, como mães. Somos abençoados o tempo inteiro com a oportunidade de termos compartilhado de momentos de amor, de afeto, de carinho, de cumplicidade incomparáveis!

Feliz Dia das Mães!



quinta-feira, 2 de maio de 2013

NO CIRCO TEM PALHAÇO, TEM, TEM TODO DIA!

E quando você acha que já viu de quase tudo nessa vida , que já conheceu todo tipo de gente - dos mais legais aos mais idiotas - vem o mundo e lhe a presenta mais um palhaço de circo!
Mas esse não é um palhaço qualquer, minhas senhoras e meus senhores! Esse é aquele palhaço dono do picadeiro, o imponente, o que comumente ri da cara do outro palhaço, inocente. Afinal de contas eles sempre trabalham em dupla, ou em trio. Por vezes em grupo maiores, mas duplas e trios se formam pro show ficar de mais fácil compreensão.
Ele chega sempre mais colorido, mais chamativo, vestindo o maior e melhor sorriso - geralmente sarcástico. O inocente vem com cara de bobo e tenta, à sombra do outro, agradar, se fazer notar.
O grande palhaço chuta o outro, puxa sua cueca, ri da sua dor quando ele cai no chão; bate palma e acha graça de sua inocência e vê sem tomar qualquer ciência do que ocorre a seu redor. Ele apenas enxerga o que lhe convém, nada que vá além pra ele tem valor. O inocente, o verdadeiro, é bobo; e quando pede socorro, é vaiado até sentir dor.
O imponente não desce de seu pedestal, dono de tudo e do mundo comanda seu circo, manda no picadeiro. Entrega flores a mocinhas sorridentes da platéia, , tira a cartola pra senhores não tão imponentes assim ( rindo por dentro, sempre se considerando mais e melhor.). Gesticula, rodopia, veste sorrisos.
O inocente, sempre considerando-se menos, segue seus passos e por vezes toma cutucões, tapinhas no "pé da orelha": "- De leve, só pra ficar esperto!" diz o grande palhaço! Fala e faz tudo o que considera engraçado, tudo o que o fizer gargalhar junto à platéia.
Ao final de seu número, quando sua apresentação vai perdendo a graça, o inocente ri e o grande cai em desgraça! Geralmente tropeça em suas próprias pernas, antes pedestais para sua onipotência. Cai e se machuca ainda mais que qualquer outro pois quanto mais alto o coqueiro, mais alta é a queda, não é assim que se diz?
De lá de cima ria de todos aqui em baixo, considerava tudo tão pequeno e engraçado; eram piadas sem fim às custas de infelicidade, sofrimento, dor...
Agora, no chão, como qualquer mortal; vê-se com a cara cheia de poeira do picadeiro, sua cartola voou pra longe, seu sorriso marcado sumiu. Seu olhar agora enxerga as pessoas verticalmente e seus ouvidos escutam não risos mas gargalhadas. Crianças pulam, mocinhas apontam, senhores debocham de sua queda ridícula, boba, sem qualquer razão.
O inocente dá voltas em torno dele, observa. Estende a mão e o ajuda a levantar. Juntos agradecem ao público e finalizam o show. Passam para trás das cortinas.
São iguais. Fazem show para arrancar sorrisos. Fingem, enganam. Um mocinho, outro bandido. Tem melhor, tem pior?
Não passam de palhaços, senhoras e senhores, nunca passarão! É assim que querem ser vistos e lembrados: por números de circo, por quedas, chutes, ponta-pés, por truques bobos para enganar mocinhas igualmente bobas; fazer rir por piadas pouco inteligentes...
Fora do picadeiro não são de nada, não valem nem a marmelada!