As grades estão lá, sempre estarão. O que prendeu a vida toda permanece no mesmo lugar; não é interessante o movimento pro que está preso e assim vive bem e feliz.
A fera que acha que é o rei das selvas na realidade virou um gatinho domesticado, que ao primeiro sinal de ração ou biscoitinho de peixe abana o rabo, senta e abre a boca.
A fera só ruge pra fazer teatro, pra assustar quando tem público pra bater palma. Sozinho, cercado por grades apenas ronrona, no máximo grunhe de leve quando a fome aperta.
Habituou-se ao pouco espaço, à comida sem gosto de todo dia, ao tratador sem sentimentos.
Não tem parceira, não tem amigos, vive só. Inúmeras tentativas foram feitas e a fera ao ver qualquer outro de aproximar rosnava forte, simulava um ataque perfeitamente mortal - simulava. Sabia por dentro que jamais mataria, jamais atacaria porque a covardia era e sempre seria uma característica de toda aquela coragem fingida.
Para o público do outro lado das grades a fera era pomposa, forte, incontrolável. Era um barulho tão alto que crianças chegavam a chorar de medo e a fera só conseguia pensar no seu pseudo-sossego, na paz que seria manter-se ali só, sem ninguém a importunar seu destino de solidão.
Com o zoológico aberto era o rei, o animal mais cobiçado a ser visitado. Estufava o peito, alinhava a juba, levantava as patas como um lutador de boxe. Nada... Era por dentro apenas tristeza, dor, solidão, saudade, covardia. Pensava o tempo todo no que deixou de viver quando vivia solto na floresta, quando tinha uma família, quando teve a oportunidade de ter amigos. Pensava no que não fez enquanto o tempo, impiedoso, passava.
A fera virou um gatinho, num canto encolhido. O futuro era só deixar passar o tempo, assustar aos que se aproximassem, esperar o fatídico dia em que não mais pudesse fazer absolutamente nada. Aguardava ansiosamente pelo dia em que fosse de fato esquecido ali naquela jaula, apagado da memória de todos, ou só lembrado pelo esplendor de outrora.
Passou a viver de saudade do que não pôde ser, de vontade de ser o que não conseguia. O dia passava, a noite também e o presente tornava-se ontem com a mesma velocidade em que o amanhã se tornaria hoje e a fera em nada iria crescer, evoluir.
As grades continuavam lá, imaginárias agora. Foi solta, alforria pela velhice. Jogada na selva pra aproveitar o fim dos seus dias ( ela pensava...). Diante de tanto espaço e tempo livre, só seu, não soube o que fazer. Não tinha forças, não tinha vida, não tinha brilho no olhar. Procurou por sua ração, por seu biscoitinho, por seu canto gelado no cimento pra dormir. Olhou buscando a platéia pra rugir e se fazer fera - nada!
Com medo daquele silêncio perturbador achou por bem voltar ao zoológico. Preferia viver em segurança, na certeza das grades que o faziam fera domada, gatinho de madame. Preferia ser ator no seu cenário cruel e frio que ser dono de sua liberdade. Preferiu ser pouco ou quase nada do que ser feliz.
Felicidade dá trabalho e requer coragem; não é mesmo pra uma falsa fera.
Só é feliz quem é fera de verdade, quem abre o peito pro desafio, quem ruge, quem grita, quem pula a grade pra ser livre.
As grades estão lá, sempre estarão. E você, vai fazer o quê?

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