quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Matrioshka

Pele lisinha e brilhante. Suas cores vivas e seu verniz impecável chamam atenção.
Uma dentro da outra, tantas que quase infinitas se somam e se encaixam.
Desenhos de flor e pedaços de formas inespecíficas, cada cor unida 
à outra por contrastes de alegria e felicidade.
Elas se abrem, uma a uma. Colocam-se lado a lado para uma breve demonstração de sua beleza.
Separadas são muitas mas são leves demais, o vento carrega. 
Separadas são partidas ao meio, somente cabeças e corpos espalhados na mesa.
Pedaços colados, lindas bonecas sorridentes. Inertes, mortas, somente vivendo de suas cores e desenhos.
Encaixadas umas nas outras criam uma vida diferente. Fazem barulho, proporcionam a surpresa do que vem depois.
A graça de abrir, uma a uma; de ver até onde vai. Da maior para a menor, até chegar à pequenina bonequinha, fixa, permanente, inalterável.
Somente ela, a menor e mais protegida não pode ser despedaçada, não dá guarida a ninguém.
Ela é cuidadosamente protegida, por várias, muitas outras que se partem ao meio por amor. Elas se dividem em cabeça e corpo, racham ao meio suas cores e beleza, pela pequenina.
Assim são as mães: se partem mil vezes pra proteger a pequena cria. Colocam-se em mil pedaços pra que a menor permaneça firme, forte. Criam capas superprotetoras e não conseguem compreender que a pequena, sem a maior, inteira, fica desprotegida, triste, sem cor e sem vida.
Matrioshka, tão linda, partida ao meio.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Expande



Olhar despretensioso, quase um desdém (leve...).
Não pensava em nada daquilo, era só o céu, o som.
Nada além cabia, até aquele instante.
Numa dúvida do ser ou não ser, do olhar ou não...
Coisas inerentes à conquista.
Combinavam em poucas palavras.
Seria estranho e até esquisito,
Se não fosse tão positivamente avassalador.
Poderia ser só por mim, já bastaria.
Seria menos, seria quase nada
Mas é mais e quer mais.
Não cabe no que aparenta;
Não se resume; se expande!
Seria só mais um se não fosse dois desde o primeiro toque das mãos.
Ali eu já sabia, ja me rendia, já queria.
Seriam só dois corpos, dois desejos, duas vontades.
Mas não é "só" porque não lhe cabe a palavra.
O querer ainda é mais, o poder é infinito.
O desejo é um: é melhor e maior que uma estória.
É uma história que merece ser vivida nos detalhes de cada gesto, cada som, cada palavra.
Não seja pouco nem menos porque não combina nem apetece...
Transborde o que você é!
Porque o que eu quero, enaltece...



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Letras e Palavras

Um turbilhão de palavras sassaricam sem parar.
Riem umas das outras, brincam com suas formas e tamanhos diferentes.
Giram como num carrossel e se misturam em anagramas.
Como os planetas, têm seu universo próprio.
Transladam e rotacionam incessantes, não param de rodopiar.
Formam frases, parágrafos, versos.
Contam histórias, vidas que foram e que ainda serão.
As letras, soltas, bailam e se fundem formando outras palavras.
Saltitam animadas à medida que o cérebro pensante, seu universo, tenta organizá-las, sem sucesso.
Ricas palavras que movimentam tanta vida à sua volta!
"Decifra-me ou te devoro!" São segredos, são mistérios, são momentos que para não desaparecerem no esquecimento precisam de palavras a descrevê-los.
As palavras, tão companheiras dos aspirantes a poeta, dos que fazem delas seu meio de conviver com seu eu, com o outro. 
As palavras tão devastadoramente cruéis, que uma vez ditas, jamais são apagadas.
As palavras, meu começo, meu meio, meu fim.




Manchas no Teto

Os olhos ainda estavam enevoados quando acordou.
A embriaguez ainda tomava conta daquela cabeça de alguma maneira.
Olhou para o teto como se fosse o céu, contemplando as manchas do tempo que passou.
Aquele tempo, aquele quarto, aquela casa.
O cheiro do que se passou ali ainda formava no ar uma nuvem de sorriso e prazer.
Parado, mãos atrás da nuca, fechou os olhos só por alguns segundos.
esperou ansiosamente para viver e reviver tudo aquilo mais uma vez.
Nem os seus mais longínquos devaneios chegaram perto do que aconteceu ali na quela noite.
Revirou-se, sentiu o aroma fresco de cabelo limpo misturado ao perfume levemente adocicado no travesseiro ao lado.
Voltou ao seu lugar, barriga pra cima, mãos na nuca outra vez.
Observa cada mancha daquele teto, pensa em quantos movimentos elas fizeram durante aquela madrugada quando ele ali, naquela mesma posição, movia-se lenta e ritmadamente, sentindo cada parte dela.
As manchas, juntas ao seu olhar, moviam-se no teto.
Agora aqui, pernas cruzadas, nenhum som, nenhum sussurro, nenhum grunhido de sono.
Recostou na parede: cama de homem solteiro, sem cabeceira, sem almofadas, pra quê?
Lençol enrolado nos pés, sol já entrando pela fresta da cortina semi-aberta.
O cenário ainda é  o mesmo. A cama ocupada por um só, as manchas no teto, o odor legítimo de tudo o que ali aconteceu.
Foram anos de espera; foram horas de quimera.
Foi um sonho realizado.
Olhou mais uma vez para as manchas no teto, testemunhas, viram tudo de tão perto, quase de camarote!
Pegou o travesseiro, inalou profundamente, sorriu.
Deitou-se no meio da cama.
Ela estaria ali para sempre.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sentidos

No escuro, onde nada se enxerga e pouquíssimo se vê, a percepção fica por conta de outros sentidos.
Escuta, sente. Uma sensação subliminar.
Um feixe de luz, leve, ao fundo, se forma.
Ainda sem muita nitidez, os olhos ainda um pouco cerrados se esforçavam pra enxergar a imagem turva que se formava.
Um tanto mais de som, leves sorrisos, pequenos sussurros ao pé do ouvido.
Um roçar de pele, música baixa e tênue a murmurar.
Cada vez mais claros os desejos se confirmaram. No plural pois eram muitos apesar de ser um só.
Na claridade onde tudo se vê, tudo muda de figura ou simplesmente aparece?
O breu traz a dúvida, o clarão ofusca.
Toda extremidade traz consigo o risco iminente da queda; coerente mesmo é escolher o meio, o bom e velho meio-termo.
Acontece que à meia-luz perde-se a sensação dos sentidos apurados na escuridão, perde-se a oportunidade de ver mais e melhor em todo o esplendor da luz.
Oscilar entre o escuro e o claro, entre o tato e a visão, entre o olfato e a audição, sem nunca, jamais perder o paladar!
Afinal, que sabor seria esse o de viver só no meio-termo, com tudo morno e nunca quente, com tudo certinho no seu lugar e nunca deliciosamente e despretensiosamente bagunçado, apenas pelo prazer de rearrumar?
Sabor bom esse de desconhecido, chance boa essa de enxergar o novo e poder ver tudo o que vem, clareia, mexe, aparece, enaltece, se forma e se faz.
Ainda é escuro, ainda são muitos os sentidos a apurar.

Pra começar, o tato vai bem, não?







sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sem preparo para lidar com a verdade, preferiu fugir a encarar.
Prefere viver em " Matrix". 
Lá tudo é festa, tudo é incrivelmente superficial e perfeito.
Em "Matrix" só existe sim, um eterno oscilar de pescoço. 
Concorda com tudo, não há discussão, não há troca de ideias.

domingo, 18 de novembro de 2012

Ela e Ele

Olha pra ele numa foto, sorri.
Ainda que amedrontada pela veracidade daquele olhar ela sente arrepios leves percorrerem sua espinha, sacode levemente a cabeça como que desacreditando do que viveu.
Maximiza a foto, modernidade na ponta dos dedos. Analisa a expressão daquela face agora com mais calma. Queria poder tocá-lo agora, sentir seu calor; sua face enrubesce.
Respira fundo, fecha a foto. Revive por segundos as horas ao seu lado. 
Ela tão segura de si, tão dona de suas vontades, tão perseguidora da razão se perde agora em devaneios e desejos (incontroláveis!).
Ele não precisa de muito: sorri, a boca se abre de uma forma que a conquista, um pré-sorriso que já a traz o céu. Olha pra baixo, e levemente pra cima; quando se dá conta os olhos se encontram. Sem palavras, já não cabem naquele instante. 
As mãos se enlaçam, a pele arrepia, uma gota de suor desce pelas costas.
Firmeza no toque, sentem o cheiro um do outro, feromônios atacando.
Caracóis de cabelos negros a se enrolar uns nos outros. Deslizar leve de mão na nuca, no dorso.
Ele a leva pela cintura, conduz cada passo, gira seu corpo e sua alma - que dança saltitante a rodopiar.
Um cheiro, um gosto, um toque. Todos os sentidos apurados e todos os desejos aguçados.
Ela respira fundo, mãos dadas, olha pra baixo, sorri timidamente.
Levanta o rosto e seu olhar agora é de furor. Quer, mais ainda, exige.
Ele vai mais fundo com aquele olhar insuportavelmente penetrante e a invade um torpor que consome, inebria, contagia.
Desejam, querem, podem.
Ela nem pestaneja e se joga. 
Ele olha pra baixo, contrai um sorriso e pensa: " E se?"



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pássaro




Sou livre demais pra alçar voos baixos.
Voando alto vejo muito mais, sinto o ir e vir de cada nuvem que por mim passeia e sorri.
Por cima de mares e terras deixo o tempo sucumbir à minha felicidade.
Não há minuto, hora, dia; só existe céu, e mar, e horizonte.

Dou rasante pro reflexo na água ficar mais bonito.
Gosto do prazer de mergulhar de cabeça e sentir o quase tudo pulsar no meu corpo.
Mais do que meu semblante no espelho d'água vejo feições e sinais de uma vida de superação do medo da morte sempre tão perto.

De longe sou bicho de asa aberta pra atacar muitas vezes.
Pareço mais do que sou a quem não me enxerga e só me vê.
De perto sou só mais um pássaro a planar, a observar seu redor.
Sou infinitamente mais do que pareço pra quem consegue burlar a armadura que insiste em cingir meu coração por tantas vezes.


Sou livre demais pra gaiola, pra terra.
Asas foram feitas pra liberdade, pés para apoio, nada mais.
Antepus meus desejos à razão de qualquer dever supostamente moral.
Arrepender é um verbo pouquíssimo conjugado; rasante não precisa de motivo, precisa de coragem!

Só coloco os pés no chão caso haja necessidade.
E ainda havendo necessidade, os olhos estão sempre apontados para o céu.
Nunca se sabe quando pássaros, livres como eu, virão em revoada.
Pássaro que sou voo só. E melhor que voar só é revolutear bem acompanhado dos que partilham da mesma liberdade.

No mais o céu é o limite!


domingo, 4 de novembro de 2012

Minutos pro Samba

Vem o barulho, batuca o pandeiro.
A chuva se forma lentamente e com pressa cai.
Pessoas amontoadas e felizes cantam numa só voz.
Vem o barulho, chora o cavaco.
Pés molhados no chão, cabeça nas estrelas.
Sorrisos e olhares se cruzam no ar.
Vem o barulho, firma o tantan.
Ligeiramente inebriados furtam bocas e olhos no cantar.
Pelo que foi e o que será, fantasiam.
Vem o barulho, voa livre o samba!





quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Hoje é meu dia!

Hoje é um dia de agradecimento. 
Dia de felicidade, dia de sorrisos.
Hoje é um dia de renascimento.
Dia de abraço, de beijos.
Hoje é um dia de lembrança.
Dia de saudade, de reviver.
Hoje é um dia de esperança.
Dia de sonho e alvorecer.

Hoje é o meu dia!
Nasci, trouxe alegria, choro, fralda, trabalho.
Cresci, preocupação, castigo, noites sem dormir.
Amadureci, conversas, orgulho, perfis iguais.
Hoje sou mais.
Aprendi, bati cabeça, sofri, chorei.
Voltei a sorrir, cercada de carinho, cuidado, respeito.
Gargalhei de doer a barriga, amigos, minha maior riqueza.
Me apaixonei, fiz apaixonar, amores de verdade tão poucos.
Hoje 30 anos depois...
Cheguei nesse mundo e ainda tenho tanto pra fazer.
Aproximadamente 1/3 da minha vida se completa hoje; aproximadamente porque pretendo chegar aos 100 ( herança de família!).
Hoje é dia de agradecer, celebrar, comemorar a vida!
A todos os que estão comigo, sempre, no coração antes e apesar de qualquer coisa,

OBRIGADA!





sábado, 20 de outubro de 2012

Frescobol

Era só mais um sábado de sol. A praia relativamente tranquila, espaço na beira d'água pro frescobol aguardado a semana inteira!
Chegaram: cadeiras de praia, cangas estendidas, areia quente nos pés. Óculos escuros, cabelos ao vento, pele devidamente preparada para curtir ao sol.
Raquetes e bolinha na bolsa, prontas para O JOGO! 
Mergulho no mar gelado, alma limpa e pronta pra brincar. Se olham, suas almas já conversam, cochicham, sorriem. Eles ainda nem sabem mas já estão em conexão...
"Vamos jogar?" - pergunta. 
"Por que não?" - responde.
Raquetes a postos, vão pra beira d'água, só o final das ondas, leves espumas molhando os pés.
Distanciam-se somente o suficiente pro JOGO, mais uma vez se olham, se observam um pouco mais.
"Pronta?" - ele sorri.
"Mais que você, certo!" - ela quase gargalha num riso expressivamente aberto.
Bola pra cima, bate na raquete; num vai e vem ela oscila de um lado ao outro. 
Esse é um jogo de vencedores, ou todos ganham ou todos perdem. A ideia é que a bolinha não vá ao chão, que os olhos não se desgrudem um minuto do movimento do outro, que cada gesto, cada rebatida seja acompanhada por uma reação adequadamente colocada.
Jogar frescobol é pra quem realmente está preparado. Não é qualquer um que aceita dividir a vitória, que aceita O JOGO  pelo simples prazer de jogar, que enxerga no rebater muito mais que um ataque, mas uma vontade imensa de interagir, de sentir o vai e vem, o ir e voltar da bolinha. É colocar em cada meneio um sentir, um viver, um explodir de emoção. É ter o domínio da ação e controlar a reação de maneira que cumprindo as leis da física sejam iguais em força, em vontade, em verdade.
Cai a bolinha, eles riem. Se abaixam juntos pra pegá-la, a morosa marola a carrega com facilidade enquanto fitam-se encantados por alguns segundos. Alguém grita: "Oi, olha a bolinha!" e distraídos percebem o mar, o sol, a areia, a raquete... Ah, a bolinha, afinal!
Vem voando ao ser lançada. Ele salta e com destreza a alcança no ar, numa demonstração máscula de poder e capacidade (como não podia deixar de ser!).
Ela parada, sentindo apenas as marolinhas que vêm e vão sorri, boba e dispersa. 
Ele vem, quase em desfile, com o riso de canto de boca, cabelos molhados, corpo brilhante de sol e suor.
Não trocam nenhuma palavra. Disseram tudo o que precisavam no JOGO. Talvez queiram dizer mais, mas nesse momento a vontade é suplantada pela necessidade.
Num instante estão sós: não há gente, burburinho, o silêncio é apenas interrompido pelas ondas que quebram maliciosamente harmônicas. Melodiavam as ondas, os olhos, as mãos, os corpos, as bocas.
Inevitáveis: O JOGO, O BEIJO, O MAIS.

E aí, quer jogar?





quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Seja!

Uso as palavras porque assim me decifro.

Passo através dela meus mais sinceros desejos.
Aprendi com o tempo a ser direta, reta: quero, sem mais.
Cada uma das palavras escritas revela uma parte de mim que talvez nem eu mesma saiba que existe. Me revelo por aqui e por ali, me segredo me revelando e conquisto a minha deusa interior, tão na moda nos dias de hoje.
Considere-se um privilegiado ao fazer parte do que publico! Não tanto pelo sucesso das minhas palavras soltas no mundo, ah, não! Mas pela verdade do meu espírito quando pensa e se move através dos dedos, quando lhe considera tão vitalmente importante que inevitável se faz escrever e descreve sobre a emoção que me causou.
Disseram-me há pouco que sou forte; fiquei pensando... Sou o que batalhei e ainda batalho pra ser; é uma luta por dia! A força vem do amor dos que me cercam, da certeza do que eu quero pra mim, do sentimento incomensurável de ser e fazer feliz.

Abuso das palavras porque assim me modifico.

Metamorfose ambulante, perigo constante! De lua, de sol, de mar. Me movimento como as marés; por vezes cheia por vezes rasa - mas sempre pronta a causar diferentes emoções a quem vê, a quem sente, a quem passa simplesmente.

Brinco com as palavras porque com elas me identifico.

Seja uma poesia na minha vida! Seja um verso, seja uma linha, uma palavra! Seja um sorriso na lembrança de um momento, seja o motivo de mais um pensamento. Seja um sonho, seja um caminho pra sentir mais e mais.
É com você mesmo, acredite! É com você que estou falando... Não é a quantidade de tempo, não é a longa história. É o olhar profundo, o sorriso congelado de doer de tão bom, são os corpos falando muito mais alto que qualquer um de nós sequer pensou.
É um batuque, é um arrasta-pé; é mais que uma vontade, um desejo.
Seja o que quiser, mas seja meu!


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Acordeom

Uma leve névoa no ar.
O acordeom tocava firme e forte, os pés se arrastavam no chão formando desenhos de sedução e da candura própria da dança, seja ela qual for.
Sorrisos velados, dedos entrelaçados, caracóis dos cabelos negros se misturavam.
Um leve arrepio, a respiração ofegante na nuca, o ir e vir de pernas e quadris a bailar.
Não pensavam em nada, apenas se desejavam. Nada além, sem mais.
Fitaram-se, sabiam: era inevitável.
Palavras, tantas. Histórias, tantas mais.
Beijo, abraço - a névoa constante.
A energia imensa contida naquele instante, a verdade daquele gesto, a vontade daquele olhar.
Trocaram a dor e o prazer.
A névoa se manteve, do começo ao fim.
O acordeom, teimoso, ainda toca.
Ah! Os caracóis dos nossos cabelos...



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu uso tênis!

Assisto como espectadora que sou a loucura das noites cariocas.
São lindas mulheres perfeitas de saias coladíssimas (ou seriam cintos?), blusas de seda brilhantes com mangas esvoaçantes mostrando por baixo de sua leveza os sutiãs de renda. São saltos altos, muito altos! Pernas que torneiam a cada passo dado - um passo pequeno, é só o que a saia "a vácuo" permite. 
São os cabelos lisos e longos, as franjas milimetricamente cortadas e escovadas mil vezes até ficar no ângulo correto entre o olho e a orelha. Brincos brilhantes, pulseiras berrantes e agora ainda veio essa coisa dos " maxi colares"... 
Onde vamos parar, afinal, antes de virarmos Árvores de Natal? 
Lindas, quanto mais altas e enfeitadas melhor. Imóveis, paradas para a admiração dos que passam. Brilham quando ligadas à tomada, ao apagar das luzes. Não tem movimento, só veneração. 
Com as luzes acesas viram um monte indecifrável de informação, galhos artificiais, plástico retorcido enfeitado com tanta coisa que a simples beleza do Natal fica perdida nem se sabe onde.
As mulheres já não falam. Fazem caras e bocas, jogam os cabelos de um lado pro outro, requebram os quadris. Retocam o batom e o rímel. Quando muito, sorriem levemente - jamais um sorriso sincero. Sorrir demais parece borrar a maquiagem. 
Dançar? E correr o risco de suar e desfazer o cabelo perfeito? Jamais!
Fico me perguntando que felicidade montada é essa que precisa de luzes de Natal, que precisa de tanta artificialidade. São vistas e admiradas sem dúvida! São desejadas pelo que mostram, mas o que são?
Quem são mesmo essas mulheres que perdem sua personalidade buscando a aceitação do outro ( ou das outras...)?
Quem é você que não sabe do que gosta porque simplesmente não se permite experimentar outra coisa que não o que todo mundo usa, o que todo mundo gosta, o que todo mundo faz?
Cada dia tenho mais certeza de que sou um E.T. Acho graça da minha inabilidade para os saltos que cismei em comprar, para os lindos e sexy vestidos. Coloco e tiro mil vezes e no final acabo sempre no tênis bacana, na rasteira, no vestido soltinho com um estilo que é só meu.
Me diverte sair pra onde nunca vou e me sentir completamente diferente: acho bacana mesmo!
Sou única num mundo de iguais: tenho cabelo curto e enrolado, uso maquiagem normal ( o necessário pra ficar "feliz"), short e tênis fazem parte do meu guarda-roupa DEFINITIVAMENTE. 
Por fora sou indecifrável; um reflexo da eterna indecisão que vive dentro de mim.
E do que é que eu estava falando mesmo?



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Palavras Minhas

Como falar de mim sem retratar a nudez emocional que revelo?
São tantas as maneiras: no olhar, nos gestos, nas palavras...
Ah! As benditas ( ou malditas, quem saberá?!) palavras!
Essas sim me desnudam cada vez que escrevo. 
Não sei ser de outro jeito. Vivo com o fervor do último minuto cada acontecimento.
Dou até minha última gota de suor, mostro minha alma, cedo meu corpo.
Não, não sou uma louca  passional; longe disso.
Cheguei a ouvir ontem de alguém que muito me importa que estou racional demais, dá pra acreditar?
São os anos, são as experiências, são as pessoas que vêm e vão com a rapidez de flechas atiradas no alvo. 
Foram as paixões e as loucuras a que me levaram, foram os "pra sempre" que sempre tiveram fim mas que ficarão marcados nos meu corpo e na minha alma.
Tatuei histórias de amor verdadeiro... Abro um sorriso tenro, quase juvenil pensando em cada uma delas.
Fui filha, fui mãe, fui irmã, fui tia, fui neta, fui amiga, fui namorada, fui mulher, fui amante; mas acima de qualquer coisa fui amada!
E qual não é minha felicidade hoje ao me dar conta de que depois de tanto tontear buscando a infinitude do amor perfeito, da paixão avassaladora; me encontro aqui e agora, plena e satisfeita comigo mesma, com minhas palavras, com a expressão sincera e humilde dos meus sentimentos.
As palavras são minhas, essas ninguém me tira, o mundo não leva, esse amor não acaba e essa paixão de escrever é incondicional.
Me mostro, me dispo, me emociono, choro ao pensar no que colocarei no papel.
Espero de você, pessoa que me lê, apenas um toque. 
Que as minhas palavras lhe toquem, lhe dispam, lhe mostrem a essência não só do que parece, mas do que é.


 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fazia frio

Fazia frio. Uma noite daquelas que pede algo mais.
Cada um no seu espaço, confabulavam com seus próprios pensamentos; ainda não sabiam mas já queriam um ao outro.
Uma parede, apenas uma parede os separava. 
Ela, imersa numa banheira quente, um livro à mão, uma garrafa de vinho e muito desejo.
Ele, corpo estirado na cama, cabeça voando no espaço, uma tv ligada, os sentidos adormecidos.
Pensamentos que de alguma forma se cruzaram, energia vibrante, pulsante, maior que a parede que os separava.
Um toque de telefone, palavras soltas, convites subentendidos e plenamente aceitos.
Cheiro de perfume no corredor, música alta pra fazer movimentar o corpo e a alma. Expressões de um humor ácido pra fazer rir e provocar, risadinhas de canto de boca, olhares que já se têm e ainda não sabem.
Mais vinho, agora a dois ( mas não a sós...). Histórias, contos, casos, decepções, felicidade, opiniões distintas ( o que seria do azul se todos gostassem do verde?). A leveza da embriaguez, a sutileza do cruzar de olhares.
Fazia frio, ela cruzava os braços à procura do abraço. Ele veio, pela nuca, ponto fraco ( ou forte?!), a respiração ofegante ao ouvido, o roçar leve da barba que cresce, corpo aos saltos mas imóvel.
Vira; mãos na cintura, pega, puxa, beija! 
Fazia frio, um vento quase glacial os levou de volta. A parede não mais os separa. Não há mais sentido adormecido: todos despertos, espertos, vívidos, aguçados. 
Roupas pelo chão, sussurros pelo ar, feições de júbilo: o tempo parou.
Fazia frio. Uma coberta, 2 corpos enlaçados.
Boa noite!




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Vida Nova

É quando uma nova vida surge que renovamos nosso voto de fé no ser humano, na vida, na possibilidade de fazer melhor, de ser melhor, de não cometer os mesmos erros, de moldar aquela vida à nossa.
É quando ela sai do escuro e quente lugar de segurança pra loucura aqui fora que nos tornamos eternamente responsáveis por sua felicidade - muito embora não possamos fazer absolutamente nada para defendê-la do mundo, ainda que achemos isso.
É quando escutamos seu ruído, seu choro, sua voz como pessoa, que grita " Ei, tô aqui, cheguei!"; é nessa hora que vem o alívio, a certeza que deu tudo certo, que a sua vida está ali, inteira, formada pelo amor de dois seres, pela certeza de duas vidas.
É quando os olhinhos pequenos e assustados se abrem, sem enxergar nada, sem saber onde está, perdida ainda em tanta luz e som, em tanto frio e medo, em tanta gente. É aí que a vida só pede uma coisa: o coração que ela ouviu batendo, o cheiro que ela conhece tão bem, a voz que embalou seus pulos e sonhos quando ainda eram uma só. A pequenina vida quer o amor dos que a fizeram, a calma e a paz que prometeram, o infinito encanto dos corações abertos para recebê-la.
É quando ela deita no peito da mãe, escuta seu coração. 
É quando o ruído some, ela está em casa, está segura, ali é e sempre será seu lar.
É quando ela aperta forte com sua mãozinha tão miúda um dedo que aprenderá a puxar por tantas vezes, que será mão, que será braço, que será o mesmo ombro no qual ela deitará pra dormir por tantos anos - seu pai.
É quando uma lágrima desce por três pessoas, uma família que se forma, um único amor que se traduz em gente.
É quando o que já não se sabe fica certo, reto: ela existe! Uma vida formada por duas pessoas que se amaram e que tiveram dentre tantas dúvidas uma certeza.
É quando ELA é a certeza, é a riqueza, é a maior e melhor lembrança, é a tradução do que é o amor.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Só nós

Dia do Amor! 
Ah, o amor!
Como falar do amor sem falar do que arrebata, que inebria, que entontece?
Tão meu, tão seu, tão nosso!
Sempre foi, sempre será. 
Falem o que quiserem todos, pensem, critiquem. Digam que é loucura, que você não merece, que eu não mereço.
Insistam que poderíamos ser felizes com outras pessoas e que estamos perdendo tempo alimentando esse sentimento.
Mas só quem viveu o nosso amor fomos nós! 
Só nós choramos juntos decidindo ficar separados, só nós morremos de rir de coisas fúteis que achamos idiotamente lindas. 
Só nós nos emocionamos a cada reencontro, a cada abraço forte, a cada beijo cheio de saudade.
Só nós sabemos a vontade que dá de largar tudo e correr pros braços um do outro; fingir que não sofreu, fingir que nada aconteceu.
Só nós ouvimos músicas e abrimos um sorriso ao mesmo tempo em que a lágrima cai, sentindo falta um do outro.
Só nós... 
É assim que decidimos viver esse amor, só nós.
Sem a opinião estranha dos que não sabem o que dizem, sem dar importância a acontecimentos que nada tem a ver com o que sentimos.
Somos mais que qualquer relação fugaz que possamos ter com quem quer que seja.
Somos mais que uma noite, mas que um dia, mais que um cinema ou um beijo dentro do carro.
Somos mais que bebidas e som alto, que vestidos apertados, que galanteios ao pé do ouvido.
Somos o silêncio que fala, somos o olhar de vontade e perdão, somos a saudade infinita da vida que não vivemos.
Somos o sonho que temos juntos, que só nós sabemos, só nós.
Um dia, nessa vida, em outra, em qualquer planeta, a qualquer momento, sabemos:
Somos só nós, nada mais.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Verbo (I)

Refresca a nuca quando passa, como a noite que cai lá fora.
Reluz e brilha sua pele; aquece e seduz.
Traz a paz com o toque e o sorriso no olhar.
Transparece a emoção sem palavras, sem sons.
Emudece e fita meu corpo no maior silêncio do mundo. 
O mundo que parou pra nos ver amar.
Fala, grita, transborda desejo, põe paixão em cada gesto.
Pega, agarra, aperta - nada é suficiente.
Queria, quero; não posso.
É meu, sou sua; não somos.
Livres vivemos, livre seremos; quando?

Infinitivo (I)

Podia te falar do fervor da alma e da malícia no olhar.
Dizer do prazer de cada beijo, da sedução em cada toque.
Silenciar no encanto dos nossos corpos, misturados na penumbra. 
Sentir o suor e a saliva, cada gota de luxúria que vem de nós dois.
Ser eu, nua, sua.
Ser você, só olhar, só silêncio.
Sermos nós um só, sermos juntos corpos e almas.
Fugir do mundo por um instante.
Viver horas por uma vida; errantes!
Viajamos e voltamos mil vezes - e ainda estamos exatamente aqui.
Sonhar com você é bom mas viver você é muito melhor!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Circo

E mais uma vez chega o circo à cidade! Abrem a lona, montam o picadeiro!
Hoje tem marmelada? 
Tem sim senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem sim senhor!
E o palhaço, o que é que é?
É ladrão de mulher!  - Ou só do seu coração, vai saber!
Tem malabarista que equilibra pratos nas varetas - gira, gira sem parar.
Tem contorcionista que se vale de mil jeitos para impressionar e surpreender.
Tem domador de leões que mantém o bicho na jaula às custas de medo e opressão.
Tem equilibrista na corda bamba, tendendo de um lado a outro sem nunca decidir se cai ou se fica.
Tem trapezista e seu fantástico voo. Soltando e segurando, voando, rodopiando. Mãos que seguram e não soltam jamais o companheiro de acrobacia.
Tem o atirador de facas confiante de sua capacidade, cada lance milimetricamente calculado pra não atingir, pra não machucar. Sua intenção é a emoção de cada faca, a adrenalina do lançamento e o abraço ao final feliz.
Tem mágico com suas ilusões, sua mentira, sua forma feiticeira de fazer vidrar, sentir, vibrar. Ganha o público de forma única! Entretém, ludibria, envolve. Tira coelhos, pombos, lenços coloridos, flores - sua cartola é de infinitos desejos! Burla a realidade com a fantasia e traz a alegria efêmera - que termina e desilude.
Mas quem é o astro do circo? Qual é a atração mais esperada?
"Chegou, chegou, tá na hora da alegria. No circo tem palhaço, tem, tem todo dia!"
Ele já chega tropeçando - e mesmo assim todo mundo ri.
Ele chuta o companheiro - e todo mundo ri.
Ele joga água na platéia, dá cambalhota, finge que cai e levanta - e todo mundo ri.
Ele leva a flor pra mocinha que assiste acanhada e um sorriso se abre - ganhou mais uma!
Mas ele também volta pra coxia. É por trás dos panos, de frente ao espelho que a máscara cai, que a maquiagem sai. É lá que a mocinha não o reconhece, é lá que nem ele mesmo sabe quem é. 
Só se vê vestido de cor e pó colorido, só se reconhece no sorriso dos outros - não sabe qual ou o porquê do seu; não sabe nem mesmo se ele existe de verdade. 
Sentado ali, parado sem aplauso e sem comédia uma lágrima cai - tira a peruca e o sapato maior que o pé. Se vê numa nudez indecorosa sem sua tinta, sem sua fantasia, sem seu carnaval, sem sua platéia a rir de tudo e de nada.
A mocinha não é mais platéia... Viu o palhaço sem rosto, sem sorriso, sem flor, sem festa, sem nada. Perdeu a graça, o gosto, a cor. Ficou preto e branco, sua única transparência foi a lágrima que caiu.

Desmonta o circo, cai a lona, sem mais picadeiro, sem mais palhaço, sem mais mocinha, sem mais.





quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fruir

Acordou. Olhou de um lado pro outro, nada viu. Parou por um instante: onde estava mesmo? 
Ah,a noite anterior! Foi ela a responsável pelo torpor, pela amnésia momentânea.
Nada como um dia após o outro e uma noite no meio pra melhorar tudo!
Horas de pouca luz, muitos sons; tantas palavras a princípio, poucas palavras ao final. 
Sem levantar, mudando só de posição na cama ainda quente, fechou novamente os olhos. Sorriu, passou a mão nos cabelos revoltos, suspirou.
Era a sua casa, o seu quarto, a sua cama : poderia ser qualquer lugar!
Era ela com seu prazer, desfrutando de cada minuto daquela noite mais uma vez. 
Quem disse mesmo que precisa dormir e acordar abraçado? 
Precisa da cumplicidade do instante, do olho no olho, da palavra certa, das mãos enlaçadas; da pegada forte na cintura, na nuca, no ombro, onde vier, onde quiser. Desnecessárias são as juras do que nunca vai existir, das promessas de um amor que não vem, de elogios que definitivamente não se aplicam.
Quer veracidade, quer sanha, quer a manha do que vai mas não fica e assim mesmo conquista. Ludibriada mas completamente consciente vive, regozija-se, frui de sua volúpia, e com ela adormece.
Coadjuvante no cenário, uma lembrança guardada no armário, o fim de um calvário. Vale a rima pobre por um sentimento nobre: prazer.
Veio e foi, como tantos vieram e virão. Ela fica, sabe quem é, o que quer, quando e onde. 
O motivo? Jamais saberá! Quer porque quer, porque cisma, porque gosta, porque se apaixona, e ama, e sofre, e chora. E se desapaixona, morre de rir sentada na areia de uma praia que sempre foi sua. Mergulha, limpa o corpo e a alma, se deita ao sol.
É pra ele que se doa, que se despe, que se expõe.
Adormece...





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Desconexos

Quanto vale um sentimento de verdade?
Quanto custa um momento inesquecível?
De que forma se faz do sublime, vil?
Com que palavras se define a covardia de um ser?
Perguntas sem resposta; questões sem esclarecimento.
E precisa?


É claro, ou deveria ser. Honesto, cristalino, transparente.
Mudar de ideia, trocar de roupa, transcender, transformar.
"Tudo muda o tempo todo no mundo", já diz a música.


Um fala, o outro ouve.
Um exala, o outro cala.
Um transpira, o outro gela.
Um abraça, o outro vira.
Um segura, o outro solta.
Um que vai, o outro sai.


O cometa sumiu, a estrela apagou - se é que um dia brilhou.
O salto foi ao chão - sem paraquedas!
O que foi interessante se fez tão superficial que como poeira se desfez no vento. 
Sem palavras, sem som, sem cuidado.
Negligenciando sentimentos e pensamentos, negando uma justificativa qualquer - talvez até as mentiras sinceras do Cazuza interessassem.
A conexão nunca existiu; a invenção do que foi e do que seria nos trouxe até aqui.
Nós? 
Pronome pessoal, não dá pra usar... Está num plural que não houve, numa intimidade pérfida, desprovida de qualquer emoção.


Foi o que sempre foi; deu-se como é, despida e despudorada.
Não sabe o que o outro foi, nunca de seu, nunca se mostrou, não sabe nem quem é.
Desconexos, convexos.
Nós? Sós!


domingo, 1 de julho de 2012

Estrada

Olhei pro lado, não estava mais lá. Olhei pra trás, estava ali, parado, estático, inerte.
No meio da estrada ficou, no meio da corrida desistiu. Perdeu o treino todo, nem viu a possibilidade da vitória desistindo tão rápido, por tão pouco.
Não teve coragem de continuar, na primeira dor parou. 
Só quem treina forte, com objetivo certo, com tempo marcado, sabe que a dor faz parte da prova, que ela é até necessária pro resultado ser positivo. É na dor que se aprende a ser melhor, a ser maior, a superação, a abstração por um bem maior: a vitória!
E a vitória vem pela conquista do que é só seu, do que ninguém pode lhe tirar: a felicidade.
Temos sempre a chance de parar e desistir: é assim pra todo mundo.
Podemos olhar pra trás e ficar contemplando a estrada percorrida e a partir daí decidir ficar ou continuar.
Muitas vezes é necessário mudar o trajeto, modificar o curso pra que a tão esperada felicidade seja alcançada. Nem sempre o novo rumo é mais fácil que o anterior. Mas certamente vale muito mais o percurso, a estrada, o bater dos pés no chão, o coração forte, pulsando, batendo. Sentir o vento soprar no rosto suado, sentir a energia boa de quem encontrou nesse novo rumo, nessa nova estrada.
Lutar é uma tarefa árdua e constante; desistir é para sempre.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Quanto Querer

Uma onda de torpor toma conta do corpo.
Olhos nos olhos, mãos entrelaçadas, como pólos opostos do ímã eles se atraem descontroladamente.
Música no fundo; o som da respiração forte, quase ofegante ao pé do ouvido.
À meia-luz as mãos deslizam sobre a pele macia. 
Perdem-se em palavras e gestos; desejam em silêncio exatamente a mesma coisa.
Veem um no outro a possibilidade de felicidade por serem só o que são e nada mais.
Não pedem nada, não cobram nada, não querem nada além de se amar a cada instante com seus defeitos e qualidades e com toda emoção que couber.
Acham-se vivos, alertas, afoitos: olhos nos olhos sem mais qualquer barreira. 
Perdem-se no silêncio depois do amor; a melhor energia, o melhor momento, a melhor vontade realizada.
Quer mais, quer sempre mais. Mais amor, mais vontade, mais saudade.
Quer tudo no mundo, quer todo o prazer em um minuto, quer o amor de uma vida inteira, quer a paixão dos adolescentes, quer o desejo que só ela tem, quer o beijo que fez deles um só.
Quer hoje, agora, amanhã. Quer sempre e pra sempre - mesmo sabendo que o pra sempre sempre acaba.
Quer assim, do seu jeito sem jeito, sem controle, sem limite.
Quer nessa vida e na outra, quer com ele porque essa foi sua escolha, sua vontade.
 Quer porque quer e pronto.




quinta-feira, 21 de junho de 2012

Queda Livre

Jogou-se! Ao olhar o que a aguardava lá embaixo não teve dúvida e se lançou no ar. 
Em queda livre sentiu o coração subir pra boca, sentiu sua batida mais que acelerada, descompassada.
Fechou os olhos por um segundo, teve medo.
Abriu porque percebeu que a emoção estava na verdade do que via, do que sentia.
Viveu aqueles segundos como os últimos de sua vida.
Sorriu sentindo o descer e subir de tudo dentro dela; gargalhou pensando na felicidade extrema do que estava passando ali.
De repente pensou em voltar. Devia haver alguma maneira de parar aquele tempo, aquele minuto. Tinha que ter uma maneira de voltar à terra firme, á ausência de mudança, à emoção contida.
Olhou pra cima, não viu mais nada além de nuvens, uma névoa leve que não permitia enxergar.
Continuou descendo. Visto que não tinha mais escolha achou por bem aproveitar a aventura.
Abriu os braços, sentiu o vento pressionando a face. Corpo rígido pela força, coração ainda aos saltos tentando se encontrar em meio a tantas emoções.
Viu a proximidade do que havia por fim. Surpresa mas cheia de coragem decidiu acelerar a descida e chegar logo ao seu destino. 
Conseguiu prever o pouso. Conseguiu mentalizar a chegada, a recepção calorosa de quem a aguardava.
Cada vez mais perto, cada vez mais junto. 
Atenta ao grande momento respirou fundo e pousou.
De braços abertos aos abraços ele a esperava ansioso e feliz.
Beijaram-se. 
Mais alguns passos, estavam novamente à beira de uma nova queda livre.
Ponderaram: hora de ir juntos ou acovardar e ficar?
Olhando dentro dos olhos dele, segurando forte suas mãos, disse:
" - Só confio na emoção que vivo, só confio em quem tem coragem de viver comigo qualquer emoção."
Juntos saltaram.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Podia...

Podia ser só o tom da voz, ou o jeito de falar.
Podia ser a maneira que me olha, com certa descrença.
Podia ser o toque suave na minha pele ou a firmeza que me sente ( e me envolve, e me ganha).
Podia ser ouvir o Chico mil vezes e sorrir pensando em você - sei lá por qual razão afinal.
Podia ser esperar os dias e horas e minutos passarem; fechar os olhos e pensar nos beijos.
Podia ser se sentir púbere e feliz, inconsequente, louca e tão minha; e quase sua...
Podia ser escrever palavras sem sentido num papel, dizer tanta coisa sem querer e querer dizer tantas outras sem poder.
Podia ser eu e você agora?
Podia?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Fala, Bárbara!

Falo de amor e de paixão. Falo de amizade, de respeito, de afeto.
Falo de desejo, de beijo, de gosto e cheiro. Falo de ouvidos atentos e boca aberta de surpresa.
Falo de angústia e medo. Falo de ontem, de hoje e de amanhã.
Falo do meu mundo, do que vivo, do que vejo viverem.
Falo do que me acha, do que me perde. Falo do que me amou, do que amei.
Falo de momentos, sentimentos, lembranças. Falo da herança que escrevo, da liberdade que desejo incessantemente.
Falo do que era pra ser, do que foi e do que ainda pode ser. Falo de rostos, sorrisos, olhos, lágrimas.
Falo de sonhos, de realidades, de voos e longas caminhadas. Falo do que não pode ser - e adoraria que fosse!
Falo de cabelos encaracolados, pele morena e salgada de sol e mar. Falo de pés na areia.
Falo do encantamento de um único momento, de ser sublime a magia do amor, da fugaz sensação de ser feliz pra sempre em um minuto.
Falo o que ninguém fala por ter a coragem que poucos têm. Grito alto o que me faz feliz e choro baixo com o que me entristece.
Falo pra caramba!!!
Hahaha.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um cometa-estrela no Universo

Vejo à minha frente um universo. Vejo estrelas, vejo cometas, vejo planetas.
Flutuo no brilho que me abraça e que comigo brinca, ri da minha inocência nesse universo tão denso, tão grande, tão desconhecido, tão!
De olhos bem abertos pra não perder nenhum cometa a passar observo a rotação dos planetas, sua interação com as luas, e anéis, e estrelas, e sóis.
Sem roupa, sem nada; na nudez da pureza do que me faz sentir. Sem berro, sem gargalhada, na tranquilidade só de fazer sorrir: grandeza. É a infinitude do que pode ser que me levou até esse universo ou a clareza do seu poder que me afasta dele?
Na imensidão me perco e me acho mil vezes.
Admiro cada estrela por sua incrível capacidade de ser bela, e grande, e forte, e única! Tantas diferentes formas tomam, tantos desenhos, tantos sonhos em cada uma delas. Sua maneira passiva de estar, de brilhar, de se manter ali, intacta, viva, serena.
 A rapidez dos cometas me atrai: tão fugazes, tão intensos. Sua velocidade, sua força ao chegar a algum lugar desarruma tudo, tira do lugar, movimenta, transcende, acende! Ele passa, fazemos um desejo : seria essa sua representação? A voracidade do desejo, da vontade incontrolável de ser, de sentir.
Planetas, habitados ou não, são a casa do que se sente; o coração do universo. Importante é a escolha do que trazer pra habitá-los.

O universo é minha mais nova descoberta! Quero explorá-lo, decifrá-lo, confundir-me nele, dele, com ele. Olhá-lo com contemplação, observar cada agente de seu ir e vir. Meu cometa-estrela, ainda tão pequeno, que nem sequer talvez tenha sido descoberto de fato, começa a excursionar esse universo ( sempre com a certeza da liberdade indubitável de ir e vir de onde e pra onde bem entenda, porque cometa-estrela livre que sou não me prendo, me encanto.).
Flutuo: gravidade zero, pés fora do chão.
Brilha, rasga o céu, o cometa-estrela.




terça-feira, 12 de junho de 2012

Bola de Cristal



Até onde vai a imaginação de uma cabeça?
Qual é o limite da loucura, da criação de histórias só nossas, de futuros previstos nessa bola de cristal única?
Num repente a clareza some e o que parecia real é tão surreal, tão incabível - torna-se vergonhoso até mesmo o pobre pensamento.
A visão do que foi junto ao que poderia ser traz à mente pensante-criativa uma realidade quase palpável. Leva o corpo a gestos crescentes de doação e desejo, os olhos gritam, as palavras se perdem e se acham confusas num redemoinho de fantasia e mundo real.
Quando pensou que acordava, dormiu.
Quando sentiu-se despertando, sonhou.
O inverso do verso lhe trouxe a prosa dura e sem cor.
Preferiu o verso da sua criação a viver proseando desamor por aí.
Preferiu sorrir pensando nos sonhos a franzir seu cenho trazendo rugas de descontentamento.
Desfilou sua poesia, espalhou sua alegria, escreveu com amor e saudade cada letra no papel.
Sujou-se na terra molhada, sentiu a água gelada, leu um rosto com as mãos e pode ver o amor ir e voltar e ir de novo com a velocidade e leveza dos pássaros que migram no verão.
Vive diariamente com a bola de cristal a visualizar mil momentos com mil possibilidades em cada um deles.
Mistura tudo porque prefere a miscelânea de mil coisas boas a uma certeza chata seja do que for.
Usa cores, cheiros, gostos e gestos; coloca palavras até onde não as cabem; sorri do impossível e caminha ( ou corre?) porque só assim consegue fazer tudo funcionar.

Que as muitas vidas que por ela passam lhe deem sempre inspiração, que as histórias vividas e ouvidas sejam exemplo e imagens para a bola de cristal, que se traduzam em palavras todas as emoções dessa vida linda e tão pouco aproveitada por tantos de nós.





domingo, 10 de junho de 2012

Uma viagem

Você não sabe nada sobre mim. 
Eu não sei nada sobre você.
As pessoas se descobrem tão de repente. 
Você veio de um final, eu ainda no começo.
Sua maneira de olhar mudou em um minuto e num toque despertou o que eu jamais imaginaria.
Analisou, contemplou talvez. Sorriu - ainda que de um jeito triste e aparentemente solitário.
Vi só o homem bacana; sumiu o que era o o que ainda poderia ser.
Observei os gestos, ouvi as palavras - me ouviu.
Falei tanta besteira, ri, encontrei um humor bacana de conviver.
Uma ligeira sugestão de possibilidade apareceu e... Fomos embora!
Noite fria, chuva; tudo alto demais, gente demais. 
Será que seria pedir demais?
Quantas e quais serão a surpresas do destino?
Quantas dores e amores viveremos até acertar?
Existe mesmo um dia certo, um momento adequado, uma pessoa ideal?
Parto do pressuposto de que o que é perfeito demais é chato, o que é certinho acaba perdendo a graça, idealizar frusta.
Saibamos encarar as oportunidades com peito aberto e cabeça no lugar.
Consigamos entender que tudo passa e que aproveitar cada instante é a parte boa pra lembrar depois.
Uma viagem ontem, outra hoje, tantas virão amanhã.
Vem comigo?!