No escuro, onde nada se enxerga e pouquíssimo se vê, a percepção fica por conta de outros sentidos.
Escuta, sente. Uma sensação subliminar.
Um feixe de luz, leve, ao fundo, se forma.
Ainda sem muita nitidez, os olhos ainda um pouco cerrados se esforçavam pra enxergar a imagem turva que se formava.
Um tanto mais de som, leves sorrisos, pequenos sussurros ao pé do ouvido.
Um roçar de pele, música baixa e tênue a murmurar.
Cada vez mais claros os desejos se confirmaram. No plural pois eram muitos apesar de ser um só.
Na claridade onde tudo se vê, tudo muda de figura ou simplesmente aparece?
O breu traz a dúvida, o clarão ofusca.
Toda extremidade traz consigo o risco iminente da queda; coerente mesmo é escolher o meio, o bom e velho meio-termo.
Acontece que à meia-luz perde-se a sensação dos sentidos apurados na escuridão, perde-se a oportunidade de ver mais e melhor em todo o esplendor da luz.
Oscilar entre o escuro e o claro, entre o tato e a visão, entre o olfato e a audição, sem nunca, jamais perder o paladar!
Afinal, que sabor seria esse o de viver só no meio-termo, com tudo morno e nunca quente, com tudo certinho no seu lugar e nunca deliciosamente e despretensiosamente bagunçado, apenas pelo prazer de rearrumar?
Sabor bom esse de desconhecido, chance boa essa de enxergar o novo e poder ver tudo o que vem, clareia, mexe, aparece, enaltece, se forma e se faz.
Ainda é escuro, ainda são muitos os sentidos a apurar.
Pra começar, o tato vai bem, não?

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