quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Matrioshka

Pele lisinha e brilhante. Suas cores vivas e seu verniz impecável chamam atenção.
Uma dentro da outra, tantas que quase infinitas se somam e se encaixam.
Desenhos de flor e pedaços de formas inespecíficas, cada cor unida 
à outra por contrastes de alegria e felicidade.
Elas se abrem, uma a uma. Colocam-se lado a lado para uma breve demonstração de sua beleza.
Separadas são muitas mas são leves demais, o vento carrega. 
Separadas são partidas ao meio, somente cabeças e corpos espalhados na mesa.
Pedaços colados, lindas bonecas sorridentes. Inertes, mortas, somente vivendo de suas cores e desenhos.
Encaixadas umas nas outras criam uma vida diferente. Fazem barulho, proporcionam a surpresa do que vem depois.
A graça de abrir, uma a uma; de ver até onde vai. Da maior para a menor, até chegar à pequenina bonequinha, fixa, permanente, inalterável.
Somente ela, a menor e mais protegida não pode ser despedaçada, não dá guarida a ninguém.
Ela é cuidadosamente protegida, por várias, muitas outras que se partem ao meio por amor. Elas se dividem em cabeça e corpo, racham ao meio suas cores e beleza, pela pequenina.
Assim são as mães: se partem mil vezes pra proteger a pequena cria. Colocam-se em mil pedaços pra que a menor permaneça firme, forte. Criam capas superprotetoras e não conseguem compreender que a pequena, sem a maior, inteira, fica desprotegida, triste, sem cor e sem vida.
Matrioshka, tão linda, partida ao meio.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Expande



Olhar despretensioso, quase um desdém (leve...).
Não pensava em nada daquilo, era só o céu, o som.
Nada além cabia, até aquele instante.
Numa dúvida do ser ou não ser, do olhar ou não...
Coisas inerentes à conquista.
Combinavam em poucas palavras.
Seria estranho e até esquisito,
Se não fosse tão positivamente avassalador.
Poderia ser só por mim, já bastaria.
Seria menos, seria quase nada
Mas é mais e quer mais.
Não cabe no que aparenta;
Não se resume; se expande!
Seria só mais um se não fosse dois desde o primeiro toque das mãos.
Ali eu já sabia, ja me rendia, já queria.
Seriam só dois corpos, dois desejos, duas vontades.
Mas não é "só" porque não lhe cabe a palavra.
O querer ainda é mais, o poder é infinito.
O desejo é um: é melhor e maior que uma estória.
É uma história que merece ser vivida nos detalhes de cada gesto, cada som, cada palavra.
Não seja pouco nem menos porque não combina nem apetece...
Transborde o que você é!
Porque o que eu quero, enaltece...



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Letras e Palavras

Um turbilhão de palavras sassaricam sem parar.
Riem umas das outras, brincam com suas formas e tamanhos diferentes.
Giram como num carrossel e se misturam em anagramas.
Como os planetas, têm seu universo próprio.
Transladam e rotacionam incessantes, não param de rodopiar.
Formam frases, parágrafos, versos.
Contam histórias, vidas que foram e que ainda serão.
As letras, soltas, bailam e se fundem formando outras palavras.
Saltitam animadas à medida que o cérebro pensante, seu universo, tenta organizá-las, sem sucesso.
Ricas palavras que movimentam tanta vida à sua volta!
"Decifra-me ou te devoro!" São segredos, são mistérios, são momentos que para não desaparecerem no esquecimento precisam de palavras a descrevê-los.
As palavras, tão companheiras dos aspirantes a poeta, dos que fazem delas seu meio de conviver com seu eu, com o outro. 
As palavras tão devastadoramente cruéis, que uma vez ditas, jamais são apagadas.
As palavras, meu começo, meu meio, meu fim.




Manchas no Teto

Os olhos ainda estavam enevoados quando acordou.
A embriaguez ainda tomava conta daquela cabeça de alguma maneira.
Olhou para o teto como se fosse o céu, contemplando as manchas do tempo que passou.
Aquele tempo, aquele quarto, aquela casa.
O cheiro do que se passou ali ainda formava no ar uma nuvem de sorriso e prazer.
Parado, mãos atrás da nuca, fechou os olhos só por alguns segundos.
esperou ansiosamente para viver e reviver tudo aquilo mais uma vez.
Nem os seus mais longínquos devaneios chegaram perto do que aconteceu ali na quela noite.
Revirou-se, sentiu o aroma fresco de cabelo limpo misturado ao perfume levemente adocicado no travesseiro ao lado.
Voltou ao seu lugar, barriga pra cima, mãos na nuca outra vez.
Observa cada mancha daquele teto, pensa em quantos movimentos elas fizeram durante aquela madrugada quando ele ali, naquela mesma posição, movia-se lenta e ritmadamente, sentindo cada parte dela.
As manchas, juntas ao seu olhar, moviam-se no teto.
Agora aqui, pernas cruzadas, nenhum som, nenhum sussurro, nenhum grunhido de sono.
Recostou na parede: cama de homem solteiro, sem cabeceira, sem almofadas, pra quê?
Lençol enrolado nos pés, sol já entrando pela fresta da cortina semi-aberta.
O cenário ainda é  o mesmo. A cama ocupada por um só, as manchas no teto, o odor legítimo de tudo o que ali aconteceu.
Foram anos de espera; foram horas de quimera.
Foi um sonho realizado.
Olhou mais uma vez para as manchas no teto, testemunhas, viram tudo de tão perto, quase de camarote!
Pegou o travesseiro, inalou profundamente, sorriu.
Deitou-se no meio da cama.
Ela estaria ali para sempre.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sentidos

No escuro, onde nada se enxerga e pouquíssimo se vê, a percepção fica por conta de outros sentidos.
Escuta, sente. Uma sensação subliminar.
Um feixe de luz, leve, ao fundo, se forma.
Ainda sem muita nitidez, os olhos ainda um pouco cerrados se esforçavam pra enxergar a imagem turva que se formava.
Um tanto mais de som, leves sorrisos, pequenos sussurros ao pé do ouvido.
Um roçar de pele, música baixa e tênue a murmurar.
Cada vez mais claros os desejos se confirmaram. No plural pois eram muitos apesar de ser um só.
Na claridade onde tudo se vê, tudo muda de figura ou simplesmente aparece?
O breu traz a dúvida, o clarão ofusca.
Toda extremidade traz consigo o risco iminente da queda; coerente mesmo é escolher o meio, o bom e velho meio-termo.
Acontece que à meia-luz perde-se a sensação dos sentidos apurados na escuridão, perde-se a oportunidade de ver mais e melhor em todo o esplendor da luz.
Oscilar entre o escuro e o claro, entre o tato e a visão, entre o olfato e a audição, sem nunca, jamais perder o paladar!
Afinal, que sabor seria esse o de viver só no meio-termo, com tudo morno e nunca quente, com tudo certinho no seu lugar e nunca deliciosamente e despretensiosamente bagunçado, apenas pelo prazer de rearrumar?
Sabor bom esse de desconhecido, chance boa essa de enxergar o novo e poder ver tudo o que vem, clareia, mexe, aparece, enaltece, se forma e se faz.
Ainda é escuro, ainda são muitos os sentidos a apurar.

Pra começar, o tato vai bem, não?







sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sem preparo para lidar com a verdade, preferiu fugir a encarar.
Prefere viver em " Matrix". 
Lá tudo é festa, tudo é incrivelmente superficial e perfeito.
Em "Matrix" só existe sim, um eterno oscilar de pescoço. 
Concorda com tudo, não há discussão, não há troca de ideias.