Sentada num canto, sozinha, esperava por uma resposta.
Chorava baixinho pra ninguém escutar,sussurrava palavras pedindo ajuda mas não conseguia levantar.
Abraçada aos joelhos, cabeça enterrada, sentia o vento que vinha da janela do outro lado da sala e seu barulho ecoava no vazio.
Era só ela, quis assim. Escolheu sentir dor até não aguentar mais, chorar até secar a última lágrima.
Reviveu cada tristeza, cada decepção, cada mágoa. Sentiu facadas no peito até a morte de cada uma de suas sombras.
Viu suas mãos frágeis tremerem e se deu conta de que esquecera de comer.
Viveu tanto tempo se alimentando de sofrimento que não sabia mais como ser feliz.
Pedia ajuda,sussurrava. Ninguém poderia ouvir, sala vazia.
Ergueu a cabeça, a claridade que vinha da janela formava sua sombra encolhida, esticava a imagem triste pela sala.
Olhou para aquela sombra comprida, amarga, sem movimento, e decidiu ser mais.
Apoiou na parede, levantar seria o primeiro passo. De pé a sombra já tinha outra dimensão e, ao movimentar os braços, fez-se voar por toda a sala.
Sorriu com as possibilidades de forma na luz, de infinitas sombras remexidas. Arriscou um passo, dois, vários! Abriu a porta.
Sentiu o clarão inundando a sala, abriu todas as janelas. A sombra sumiu. Não havia mais espaço para ela. A claridade ainda incomodava os olhos, mas o sorriso foi imediato.
Atravessou a porta, a sala ficou pequena demais pros seus sonhos.
Lá fora, lhe esperava seu anjo. Protetor, amigo, esteve ali todo o tempo: guardando sua luz, velando sua dor, esperando por sua redenção enfim.
Como anjo que é, fez-se onipresente, apareceu quando menos esperou pra segurar sua mão, amparou seu passo, aninhou num abraço.
Acolhida, amada, segura; ela se deu conta de que podia mais. Vendo a luz que entrava na sala quis saber de onde vinha e foi em direção ao anjo que apenas sorria.
Passar pela porta foi seu maior desafio depois de conseguir escapar da sombra que há tanto a consumiu.
Um sorriso do anjo! Seus braços abertos, um sol sem fim que brilhava e esquentava seu coração.
Saiu! Livre, certeira, jogou-se naqueles braços, guardou aquele abraço e viveu aquele momento pra nunca mais esquecer.

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