Olhou pra chave. Pensou, uma lágrima brotou no fundo do olho, teimava em cair. Apertou forte os olhos, seu semblante mudou, fechou com força a chave na mão. Sabia que se trancasse a porta jogaria a chave fora e aí nunca, nunca mais teria volta.
Abriu os olhos, respirou fundo. Olhando viu na palma da mão a marca dos dentes da chave; ficariam marcados ali por alguns instantes, somente o suficiente pra tomar sua decisão.
Caminhou poucos passos, empurrou a porta, enfiou a chave na fechadura ainda esperando que a campainha pudesse tocar ou que chegasse batendo desesperadamente na madeira maciça pedindo pra abrir. Nada.
A marca dos dentes saiu da mão, hora de trancar a porta. A marca no peito não saiu, não sairá tão cedo. Mas se não há mais jeito, se já não é mais tempo de viver, se o caminho que passa através dessa porta já não leva a lugar nenhum o que fazer senão fechá-la? Deixar uma porta encostada pra sempre impede que a vida siga em frente, impede que outras portas se abram, por simples falta de oportunidade.
Tranca a porta, duas voltas pra não ter mais dúvida. Joga a chave fora, quebra, faz qualquer coisa.
Pela porta da frente não passa mais. Caso um dia queira chegar a esse coração de novo, meu caro, procure outro caminho: outra porta, pule a janela, quebre a parede.
Aqui, meu bem, só mandando fazer outra chave!

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