domingo, 13 de maio de 2018

Furacão e Inércia

Acorda.
Abre os olhos ainda confuso depois do furacão que passou. 
Levou tudo! Levou a casa - que ele julgava firme, levou os móveis - que ele julgava fortes, levou os seus - que ele julgava eternos. 
O furacão veio sem aviso. Ventava aqui e lá, silencioso, destruindo aos poucos sem avisar que chegaria ali. 
Ele, seguro em sua hipotética fortaleza,vivia de sonho e de sorriso, de uma estrutura que julgava ser maciça e era frágil - desmoronou. 
Foi uma madrugada já tensa, de ventanias que anunciavam um suposto fim. 
“Será que a cada aguenta?” - pensou ele. 
“É só um vento forte, encosto as janelas e tudo bem.” - supôs. 
A ventania, mostrando a que veio, uivava. Entrou pela casa batendo portas, quebrando copos, pratos, o que via pela frente. 
Assustado, entendeu que só encostar as janelas não bastaria e trancou todas elas, passou a chave nas portas, guardou o que sobrou de suas coisas e foi, covarde, se esconder debaixo da cama. 
Rastejando pelo quarto, ouvindo o zumbir da ventania, ele custava a crer no que estava acontecendo: tudo que ele construiu, sendo levado, devastado, destruído. 
Esqueceu dos seus, no quarto ao lado, acuados. Sua preocupação foi com as coisas, foi com o que batalhou duro pra conseguir comprar - afinal ninguém sabe seu esforço pra ter cada uma daquelas coisas ali, enfeitando sua casa. 
Acovardou-se, esperou o furacão passar. Debaixo daquela cama, no escuro, só sentia o sacudir de tudo desmoronar à sua volta. 
Não tinha mais casa, não tinha mais mobília, não tinha mais família. 
Ouviu, covarde, o grito dos seus a suplicar por ajuda. Não se mexeu. 
Inerte, apenas respirava. Não foi capaz sequer de dizer que os amava, que sentia muito, que simplesmente esse era o melhor que podia fazer - fugir. 
Nem isso. Apenas esperou, parado, estático, debaixo de uma cama. 
Rezou para os céus esperando pelo milagre. 
O milagre não veio. 
Veio sua vida, agora sem por quê. 
Sem casa, sem mobília , sem família. 
“Mas eu não vi” - ele repetia a todos. “Eu não vi o que aconteceu. Só fugi e me escondi o mais rápido que pude. Não sei onde estavam todos, estavam lá?”
E como um mantra ele repetiu pra si, por toda uma vida, vagando, só: 
“Mas eu não vi, eu não ouvi, eu não senti.”

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