Ver mas não enxergar, vendar-se. Por incontáveis vezes ameaçar tirar a venda, recolocar.
Ver o escuro e saber que um universo se abre do lado de fora: falta coragem.
Acostumou-se ao breu, ensaiou sua cegueira durante tempo suficiente para sequer sentir a ausência do sol. Não mais enxerga à sua volta, nem relevos mais reconhece pois até o tato, única forma de ainda reconhecer o mundo, perdeu.
Perdeu o jeito, perdeu a forma. Tem medo de tocar porque sabe que o toque lhe desperta a sensação; a sensação traz consigo o bater acelerado e forte de um coração habituado ao escuro.
Lava a alma, limpa o corpo. A venda cai naturalmente, desacostumado da claridade sente uma certa repulsa à luz. Com dificuldade pisca muitas vezes até conseguir abrir os olhos por completo: começa a ver. A água cai mais forte e leva pra longe a venda e seus sentimentos, seu amargor, sua angústia. Traz uma paz há tempos perdida e uma vontade de enxergar o que antes era impossível. Ao redor cores e cheiros, barulho do universo a conspirar. Olhares se cruzam quase como se fosse a primeira vez e furtivos desencontram: ainda o medo.
Uma mão é estendida, um toque sutil depois de tanto tempo. Um leve rubor na face, um vulcão adormecido por dentro da alma. Reconhecem os gestos? A cor dos cabelos, o contorno do rosto antes desenhado no silêncio de um minuto - pra nunca mais esquecer.
Que fique claro: entre ver e enxergar existe uma sutil diferença e reside nela a vontade de voltar.
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