Começou na madrugada de breu e sons, na manhã de sol. Seria só mais uma tarde.
O mar: agitado, revolto, ondas fortes, vento incontrolável.
O barco: tão pequeno, frágil, madeira e tinta ainda frescas; nem nome tinha mas sabia, era muito, era mais.
Oceano de tristeza cerca o barco. Inocente, não sabia onde estava entrando quando saiu do porto, faceiro e novato a navegar.
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Empurrado da areia da praia, âncora leve, viu no horizonte um céu claro, um sol a brilhar no fundo e sem pensar pôs-se a navegar.
Marolinhas colocavam o barquinho oscilante cada vez mais longe da praia, tornando sua volta mais difícil e tardia.
Dias e noites de muitas palavras, de sorrisos e olhares indagadores, de risos e semblantes sedutores.
À espera da tempestade, mesmo sem saber, o barco seguia.
Algumas nuvens começaram a se formar no céu, a brisa que antes soprava tornou-se vento forte, quase uivante.
Assustado pela velocidade dos ventos e a voracidade da formação das ondas, o barco compacto e tremelicando sentiu-se menor ainda do que já era. Lutou para manter-se marinheiro. As ondas cresciam, assustavam à medida que batiam, fortes e esmagadoras em seu casco tão sensível.
No silêncio dos sorrisos ouvia-se só um tropel de vento, madeira retorcendo e ondas furiosas a quebrar.
O incrível amor pelo horizonte fez o barco persistir; não abriria mão de chegar onde quis chegar ao sair daquela praia, ao subir sua âncora, ao sentir a areia ficar no fundo do seu casco e sumir, afundando no mar azul.
O barquinho frágil se viu forte, reuniu o que podia de seus escassos recursos e decidiu enfrentar a tempestade que furiosa assolava céu e mar.
Ao seu redor um universo de dor, tristeza, devastação. Dentro dele todo o amor do mundo, toda a vontade, todo o desejo de um final feliz, de uma luz, de um pôr-do-sol laranja no horizonte, afinal.
Acreditava e era sua fé que o fazia atravessar a tempestade.
Noite pós noite a tempestade se manteve.
Depois veio o silêncio, aquela calmaria inquietante.
À espera de um milagre, à deriva estava o barco. Sozinho, perdido, largado num mundo de água azul.
Perdeu-se ali, querendo se achar.

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